Importante

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sexta-feira, 23 de junho de 2017

Potência X onipotência


Cais de levantar

A vitória é de quem conta monta a História, os laureis, os tonéis, os marcos na memória, as honrarias, homenagens e as pilhagens do heroico egoico vencedor espoliador e ao vencido a humilhação, o esquecimento, a erosão, o banimento, a excomunhão. Vitória da Santa Inquisição, poder paralelo queimando bruxas pé de chinelo e homens das Ciências, quanta onipotência, que renegaram seu saber pra poder viver. O poder nos regula e tem gula. Dúvidas? Dívidas? Vide bula. Sem cota, nos derrota e vira as costas, amordaça, enforca na praça em nome de Deus, temporada de caça aos plebeus.

Pro planeta Terra, sendo de guerra, derrota e vitória são a mesma escória, mas tem também as vitórias redentoras de Ghandi e Mandela, duas grandes almas a vencer a opressão sem armas letais armados só do coração e paz. Quem sabe um dia a utopia se faz real e a vitória seja apenas a glória das ondas quebrando no cais sem quebrar o cais.

                                      

sábado, 17 de junho de 2017

Busca brusca



                                  Famintos

Procura nos cura de que? Procura nos estrutura, se não somos buscadores não somos senhores do destino, nos sobra o desatino. Busca-se e mata-se a cobra e mostra-se o pau, jornada desenfreada atrás do Graal pessoal. Nada buscar, nem o luar nem o espelho nos faz fedelhos sem metas, sagitários centauros sem setas? Busca do ouro, do tesouro diamante, busca do perfeito amante, busca do Eu. busca de Deus, só somos humanos se buscamos? "Coitada, não busca nada..." busca da verdade, busca à novidade, busca de cometas, toda busca que cometas será louvada, google humano buscador buscaprazer, no cardápio insano da fome de viver.

                                                        

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Todo músculo que sente

                     

                            Tocatta sem fuga


Infarto é o coração farto da pressão, que fibrila de entrar no fim da longa fila, de bater em vão e apanhar outro tantão. A taquicardia que ardia agora adia o dia quando é noite e a noite quando é dia. Noite e dia esse tambor soando alto por teimosia, afã do amor de sobressalto, assalto à mão amada, estouro da manada, na montanha russa sem ser no parque, as fuças no vento, a fúria dos elementos, adrenalina, sina de quem ama e se derrama, humano lança-chamas da autocombustão, paixão é amor só que amor extremado acelerado sexuado ou não. E o coração, como fica? Como um Guernica de Picasso, amor em pedaços, ou O beijo de Klimt, amor constituinte e com requintes. Coração, músculo, corpúsculo que ama medroso, corajoso em Alfa, Beta e Gama, do deserto do Atacama às avenidas de Tóquio, toque-o fundo e o mundo saberá que ele te chama.




sábado, 3 de junho de 2017

Guerra em paz


De sol a sol

Trave entrave pro artilheiro sorte do goleiro a defesa trava épica batalha contra o ataque e quando o trava sai no contra-ataque guerra de araque a de verdade é no Iraque as bombas do atacante insinuante só balançam a rede a saciar a grande sede da imensa intensa torcida ela urra exigente que sua valente e inclemente tropa venha veja e vença e dê uma surra no inimigo

 As armas desse combate são o chute e o drible e a equipe que mais a domina essas artes circenses guerreiras costuma ser a primeira na disputa e na luta vale quase tudo até chamar o juiz de filho da fruta

Ao vencedor que vence a dor cabe a delícia do troféu de campeão e a paixão começa tudo outra vez o perdedor é o freguês e promete dar o troco fica todo mundo louco olha que golaço um estranho te dá um abraço nessa ilusão de Quimera até o planeta é uma esfera que gira de sol a sol codinome futebol

                                                   

sexta-feira, 26 de maio de 2017

(San)idades


                                     Deidades

 A sextessência da quartaidade é a anticiência da desidade sem vaidade vai dar de 10 a 0 no lero lero do zelador das normas em boa forma das judites com gargalhite aguda e os 50 tons de ranzinza crônico histriônico feito Buster Keaton a sextessência é a meninice equipada com milanos de estrada desapego de tudo e um ludo assim do nada inesperada folia por um simples novo dia leveza indefesa que nem liga pras fraquezas da mente e da matéria é finalmente estar viva livre das expectativas o ziriguidum da sextessência é a quintessência mais um é despir-se da tenência sem calça sem causa nem consequência voar fora da asa e de repente perguntar: que ano é hoje? E morrer de tanto rir


sexta-feira, 12 de maio de 2017

Mudançando

                    




Cansou trocou as alergias pelas alegrias os miasmas por orgasmos a catarata por sorvete de nata sem fé por café tensão por tesão o inferno do terno pelo em pelo pós-moderno  desconstrução em construção encontros são enquantos de encantos nos cantos e centros dentro descansou que é cansar-se de se cansar e pois sim pôs-se a causar desenclausurar seus desejos adejos de asas céu profundo nuvens rasas Îcaro arremete Prometeu só promete fim de tarde o sol arde a nuca antes tarde do que nunca cansou-se do trivial do frugal de guinadas de trezensessenta graus não quis ser mais um clone de si e sim um ciclone em frenesi não o fim mas o até que enfim


                            
                                        

sábado, 6 de maio de 2017

Rima e solução





 Rima e solução


Lucidoidos têm lampejos beijos de língua universal particular nas partículas de estrelas lambidas lambda farto flerte com o inesperado inoperado a pós-agonia da cosmogonia lucidoidos têm lampejos feito vagalumes que comem legumes veganos luz de distância em qualquer instância lucidoidos são assim um nanquim indelével que tatua mentes e corações e os faz resilientes insurgentes convergentes bom ver gente beber nessa fonte que verte luz e subverte tabus lucidoidos piram inspiram saltos sobressaltos quânticos cânticos de transgressão às normas mornas o martelo de Nietzsche Gentileza e os grafites Einstein mudando o tom de Newton Bispo do Rosário e seu mundo indumentário lucidoidos mudam o mundo esse mundão o chamam de Raimundo e inventam a solução



sábado, 29 de abril de 2017

Strip crise



Strip crise


Se o ócio criativo vira um sócio vingativo os demônios fazem motim os hormônios acham ruim o Arlequim vira Pierrô que horror ao som de um calipso chega o Apocalipse ipsis literis a tela em branco encalha no barranco lento feito lesma na mesma tento o fomento do texto conciso mas pro meu prejuízo  só despertaria riso tosco bilhete em falsete fora do tom jobiniano ou não então apelo feio pro termo do meio e busco o leve breve mas pra meu tédio sai um arremedo de bula de remédio tamanho médio daí parto com dor prum texto extenso sem senso de humor profundo abissal e afundo em areia movediça carniça pra urubu vai tomar café de jacu! pra ver se volta a inspiração que a piração já tá me deixando louco e mais um pouco eu desisto desinsisto entrego os pontos me retiro dou-me um tiro me aposento vou pra dentro ah já sei tive uma ideia vou parodiar Medeia mas vai que todo mundo odeia peraí melhor reiventar o Saci mas com 3 pernas não acho que não é meu dia ou então meu dia chegou ou sei lá tudo no fundo é poesia e amanhã é outro dia tosca desculpa pra crise ainda que eu relativize e eu fazendo strip tease bem na frente do leitor é muito amor que nem me cobra então tô fechado pra obras prometendo novas obras  não tirei leite da pedra a coisa não flui já tô aqui falando merda fui!

                                      

sábado, 22 de abril de 2017

Palhaçada

Sempre tive fascínio pelo circo e em particular pelos palhaços.


Palhaços povoam o imaginário de todo mundo.

Eles representam nosso lado iconoclasta, transgressor e anárquico.

O bobo da corte era uma espécie de canal tolerado que servia de válvula de escape do povo.

Os palhaços nos fazem rir. Rir de nós mesmos.

Palhaço é o menino que cresceu e continua menino, traquinas, lúdico, sem planos, sem neuroses nem medo da vida.

Charlie Chaplin foi um dos grandes palhaços da História. Não por acaso veio do circo. Encarnava, a seu modo super peculiar, a figura do “clown”, melancólica e poética. Chaplin, com seu Carlitos, encarnou esse arquétipo e enterneceu e fez rir a muitos e sua arte permanece viva com toda a sua universalidade. Chaplin foi um grande poeta sem palavras.

Como Carlitos, os palhaços sonham, se frustram, apanham, questionam, se atrevem. Mas no fundo não levam nada muito a sério. Sua irreverência nos assusta, mas nos redime. Estão nos picadeiros a nos dizer de forma explícita, mas também subjacente, que apesar de tudo a vida e a gente são pra ser felizes.


O espetáculo acaba e levamos conosco o riso e a leveza que acalenta a alma.



Na lona


No maior estardalhaço
Teatral espalhafato
O mais sério dos palhaços
arma o circo e monta o ato

E cidade após cidade
O feroz sobrevivente
mente verdadeiramente
as mentiras e as verdades

Delicado, às vezes rude
Nos imita e nos ilude
nesse jogo de espelhos

Rege a banda e chuta a bunda
Na tristeza mais profunda
faz-nos rir, velhos fedelhos


sábado, 15 de abril de 2017

Areia movediça

Não tenho (e nem acho que se deveria ter) a pretensão de ditar

regras e criar ou perpetuar normas engessantes.

Mas mesmo a indulgência tem limites.

O erotismo na arte. Com frequência se constata a areia movediça em que essa associação se converte. Perigos potenciais que rondam os criadores, à espera e espreita de um instante de distração.

Erotismo é tema oportuno, necessário, mas também é traiçoeiro e requer permanente foco no que escape aos clichês, fuja do grosseiro, contorne o piegas (sim, não só nos poemas de amor!) e passe ao largo do sacralizante.

Nunca é demais lembrar que erotismo e sexo não são sinônimos.

Texto erótico pode sim, descrever situações cotidianas, (fugindo assim do permanentemente etéreo e ou sacralizante, mas não ser banalizante na forma e na narrativa..

Erotismo não precisa redundar necessariamente em ares sérios. O lúdico é bem-vindo.

Texto erótico pode sim, ter momentos chulos, mas não a ponto de converter um texto numa pichação em banheiro público.

Bom gosto, refinamento, a fronteira do rude com o delicado, são temas discutíveis e até certo ponto subjetivos. A meu ver a mistura disso tudo e não o isolamento em elementos estanques é o que costuma desaguar no melhor que a arte erótica pode nos oferecer.

imagem: Vee Speers






sábado, 8 de abril de 2017

Sem limites.com?


O artista é, antes de mais nada, um cidadão, com suas consequentes interações e implicações. E como cidadão que é, repercute e reverbera fatos, sentimentos, sonhos, perplexidades, alegrias e tristezas, sombra e luz, desesperos e alentos.

Artistas e não artistas, dicotomicamente são diferentes e semelhantes. O artista e a arte trafegam entre limites. Não fosse assim, que impacto a arte teria, ou seja, o que ela traria de contribuição para o pensar e sentir a vida e o mundo? Cabe ao artista não só exaltar as belezas, de certa forma as confirmando, mas também provocar, tirar as pessoas de sua zona de conforto, inspirá-las. Sem este mínimo de atrevimento, a arte se reduziria a mero acessório e enfeite.

Mas dar livre vazão a essas ousadias é salvo-conduto para um proselitismo maniqueísta, por exemplo? Arte e artista são livres a ponto de propagar ódio, violência, preconceito e discriminação?

 Particularmente penso que causa e efeito não devem ser confundidos. O veículo empregado não tem “culpa” e qualquer um pode se escudar por trás da arte para disseminar suas ideias e ideais de ódio e violência, assim como pode optar pelo simples discurso direto sem veleidades pseudoartísticas.

O artista mostra saúde quando não se omite, quando toma partido e não se apresenta indiferente a causas e questões particulares e globais. Mas a arte agradece quando ainda assim não faz juízos de valor. Garcia Lorca e Maiacovski são exemplos lapidares disso.

O artista é um ser social e quem vai estabelecer e mensurar limites à sua expressão, além da sua própria consciência, serão seus pares e fruidores, seja pelo aplauso e corroboração, seja pela rejeição e repúdio.

Aí se abre uma delicada discussão sobre a legitimidade (ou sua negação) da censura e a liberdade de expressão.




Noturno

Um sino sem seu badalo
balança em total silêncio
Quisera ser um cavalo
Ele não pensa, eu penso

Um vento sopra de lado
Qual caranguejo evasivo
Carregando o mapa errado
Tesouro em vulcão ativo

Rastros na areia desfeitos
Deuses do mar são suspeitos
A lua desvia o olhar

Num centauro convertido
Mando flechas num sentido
Que voltam pra me alvejar


sexta-feira, 24 de março de 2017

Arrima



A rima é prima da música, canção quase sempre rima, repentista rima bem e fácil e veloz. Rima-se no papel e na voz, nós rimamos por instinto e tradição, rima é mnemônica até no Eduardo e Mônica. Rappers rimam feito ímã que atrai o som, rimar é bom mas Neruda, não se iluda, fez sonetos de amor sem rima alguma. Leminski e Millôr, agudo humor, puseram rima em haicais geniais, aliás Shakespeare rimava mas poeta atual manda às favas rima escrita e verbal. Rimar é o mar que ri porque o poeta remar lhe causa cócegas. Rimar às cegas é como poça no fim do escorrega mas rimar com verve o poema ferve. Rima rica rima pobre e preciosa, se a alma goza e não é pequena rimar vale a pena. Rima é facultativa mas se surge a diva ao luar como não rimar?



Devir


Dia virá
em que a ostra
porá à mostra
sua pérola íntima
Dia virá
em que Buda, Krishna, Cristo, Alá
serão um só
e ouro em pó vai revestir
os pregos do faquir
e a Aurora Boreal
Dia há de vir
em que nada fará mal
e o desigual será matiz
de todo igual que lhe é matriz
E nesse dia
a poesia se dirá

mesmo em silêncios


sábado, 18 de março de 2017

sábado, 11 de março de 2017

Etérea matéria


Somos  seres regidos pela dicotomia corporal/mental, sensação/sentimento, matéria/espírito.

A angústia predomina quando essas duas naturezas por algum motivo não se harmonizam.
Não importa  o sentido do caminho, quando o denso e o impalpável se interpenetram, vem a plenitude e a alegria.

Camile Claudel esculpe em bronze e sua pequena estátua  como que grita e explode em vida na percepção de quem a vê.
Um violinista extrai da madeira e das cordas notas musicais que invadem o ar rumo aos tímpanos dos ouvintes criando imagens e emoções intangíveis.

Nossa  porção corpórea tende a ser cartesiana, materialista, lógica, de crer no que vê, e buscando a transcendência de ver o que crê.
Afeto e tesão podem se originar um do outro.  De novo vale a via de mão dupla onde se cruzam e encontram nossas naturezas dicotômicas.

Beijar e abraçar são atos físicos que além de afetar os sentidos são plenos de energia emocional sentimental impalpável  e dotados de carga fortemente simbólica, logo, intangível.

O corpo se ressente do que lhe basta e falta, na sua contraparte corpórea, matéria que atrai matéria, mas, já querendo mesmo rimar, a alma que nos anima é etérea que atrai etérea. Então esse lado nosso mais sublime se liberta de seu veículo somático e, intangivelmente vence distância e tempo e de modo invisível cria novas realidades que nem por serem intangíveis são menos reais. Como o amor.



Os três sentidos


Mesmo que entre nós exista um mar
Três milhões de torres e portais
Dez mil anos-luz, quem sabe mais!
Não se faz preciso te tocar

Antes que o meu nome tu recordes
Já surgi veloz em pensamento
Meio suspirar e já estou dentro
Nada que é do sonho e do que acordes

O amoroso elétron toma senso
Ínfimo, agiganta o gozo extenso
E ambos são Golias e Davi

Triplo é o sentido do sentido
Corpo, mente e espírito fundidos
Pleno é o sentimento: agora e aqui



sábado, 4 de março de 2017

Palavra: o que não a mata, a fortalece


Os futurólogos e gurus da informática não puderam prever a verdadeira erupção do vulcão adormecido da palavra escrita, com a popularização da Internet.

O advento do computador pessoal, portátil ou não, está criando novos amantes da palavra e quiçá futuros escritores, ou no mínimo ávidos leitores, familiarizados pelo intenso treinamento da febril digitação de mensagens de texto ou mesmo em conversas em tempo real nos instant messengers em notebooks e smartphones. Sim, porque recentíssimas pesquisas mostram que os jovens preferem a comunicação por escrito às conversas de viva voz. Basta que observemos: a quantidade de gente digitando mensagens é muito maior do que a gente falando nos celulares.

Ora, direis, que esse, digamos, novo paradigma não aponta necessariamente para uma evolução, um aperfeiçoamento massivo de hábitos, mas quais parâmetros nossos serviriam de base para esse julgamento? As bienais e feiras do livro desmentem isso de forma concreta, o livro, ou seja, em última instância a linguagem escrita, a palavra impressa está reavivada, redimida, resgatada. Se isso vai perdurar, não arrisco prever; nesses tempos velozes e vorazes tudo pode mudar.

Mas...peguemos carona nesse bonde pós-moderno e nos deixemos levar por onde e para onde a palavra nos queira levar, com seu poder de nutrir a imaginação, de instigar as ideias e o debate delas. Sou um eterno apaixonado pelas palavras e a cada momento percebo que existem muito mais iguais a mim do que eu antes podia imaginar.


Vide bula


Palavra é ritmo e dança
Brinquedo de desmontar
Palavra é de som e ar
Aguda ponta de lança

Contida, exaltada. chula
Chicote ou doce canção
Carícia ou demolição
Na dúvida vide bula

É mapa, é lei, estrutura
É luz numa mina escura
Ou pura contradição

Mentira mais verdadeira
Verdade mais traiçoeira
Não diz sim e sim diz não


sábado, 11 de fevereiro de 2017

Poemas de rua

Nesses tempos de tablets, smartphones e outros “gadgets”, ainda não me acostumei com escrever, criar, nesses pequenos dispositivos. Já tem alguns anos que criei o hábito de escrever direto no computador, mas a escrita à mão não abandonei completamente; num caso isolado ou outro, ainda lanço mão (literalmente) da caneta e papel, que foram meus instrumentos por longo tempo.

Mas o problema é quando não estou em casa. Romancistas e contistas são escritores eminentemente caseiros no ato de escrever. Eu diria essencialmente caseiros. A escrita deles é extensiva e contínua, ao passo que os poetas são mais fragmentários, mais econômicos e imagens, ideias, palavras vão surgindo meio atrevidas e insolentes e sem escolher hora e lugar pra “atormentar” seu atarantado porta-voz, que é o poeta. É meio como ser um repentista mais vagaroso e que cria em silêncio.

Sendo assim, o “assalto” ocorre numa fila de banco, no supermercado, correndo na beira da praia, num trajeto de carro, enfim, em situações imprevistas em que nem sempre é possível sacar o smartphone e digitar no bloco de notas.

Já me aconteceu inúmeras vezes e penso que não vai parar: ter que apelar pra minha memória. A minha sempre foi boa, mas a distração e o excesso de informação nos afeta e faz parciais desmemoriados. Mas com a poesia ocorre um fenômeno: a memória se mostra quase infalível. 

Não sei quantas vezes que, sem caneta e papel, sem celular, sem lenço nem documento, fiz estrofes inteiras, às vezes até poemas inteiros ou quase, “de cabeça”. Eu mesmo fico incrédulo e atribuo isso ao medo de perder a ideia, a palavra, o verso e esse medo me faz obstinado a ponto de reter tudo e “salvar” os versos no HD de massa encefálica. A cada trecho já “escrito” reviso, declamo mentalmente e só aí prossigo na criação.

Quando chego em casa, aflito, corro pra máquina, olho pro teclado e despejo tudo na tela, com grande alívio, nesse louco “delivery” de poemas de rua.

Não recomendo esse hábito a ninguém, o risco da perda é alto. Só que acho mais perigoso ainda cair num bueiro aberto enquanto estou correndo e ao mesmo tempo escrevendo um poema no meu celular.


O poema a seguir é um desses “poemas de rua” que escrevi sem escrever. Um poema “de mente”.
                                                                     

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Universalidades particulares


Tive de recorrer à prosa poética pra me colocar.


Habeas porcus

Nas cidades perplexidades nos campos escassos pirilampos um Chapolin do Mal Trumpolim pra famigerada fama de demolir o barraco de Obama sinal dos templos maus exemplos vindos de cima as loucuras do clima futuro sombrio como o frio novo Muro de Berlim no fim da picada texano insano enquanto no resto do mundo crianças sem esperança em nada são fulminadas pela fome ou pelos homens com balas perdidas e achadas enquanto a utopia entupia e virava entropia enquanto o pinto pia a pia pinga e ninguém nos vinga nem redime ainda bem que meu time foi campeão e essa terra não tem vulcão nem ciclone só uns clones drones e iphones e outras muambas de Cochabamba e logo é Carnaval, que mal habeas corpus sarados bronzeados...

                             

sábado, 28 de janeiro de 2017

Considerações gerundiais




O que não se pressente

O agora é o presente que a gente ganha da vida sem barganha a saída do que veio o papel amassado do passado o recreio o recheio cheio de sabor o calor que nos move mesmo se chove a nau que singra o mar e não o não que sangra sem parar feito os defeitos que não se quer relembrar agora desfeitos o presente nos é dado desmontado e a gente monta apronta aos poucos loucos pra que resulte e a gente exulte e o presente presenteia e se tece a teia de eventos sentimentos inventos sentidos de incontidos improvisos de entãos fugazes e mãos cheias de ases no jogo do logo do fogo que se sopra e ele alopra vivaz no lume e os cumes e grotões são intercalações que urgem surgem passam e o novo vem de trem de escada do nada pro mal pro bem e tal com sal ou sem now vem de surpresa incerta comporta aberta da represa

                                                                                              

sábado, 14 de janeiro de 2017

Sou neto

Sou o que chamam de sonetista, ou seja, alguém que ousa tentar escrever sonetos.


Sonetos, na forma, são poemas de 4 estrofes, dois quartetos e dois tercetos, totalizando 14 versos. Vêm da tradição literária francesa e inglesa. Shakespeare os escreveu, Pablo Neruda e Augusto dos Anjos também, entre tantos outros luminares do gênero.

Lembro-me do fascínio e do impacto estético e existencial que a leitura, ainda adolescente,  dos sonetos de Augusto dos Anjos me causou. O registro disso no meu inconsciente deve ter sido tão marcante que, mais tarde, vim a me aventurar pela escrita deles.

Sonetos são considerados, quase uma unanimidade, de feitura árdua. E não é pra menos. Os cânones que o caracterizam são precisos e rigorosos. Você tem que expressar sua ideia e emoções em exatos 14 versos, iniciados por dois quartetos e finalizados por dois tercetos. A métrica não se impõe com menos rigor. A estrutura das rimas, sua disposição ao longo do texto, até que aceita algumas variações, mas a simultaneidade disso tudo cria dificuldades para seus autores.

Manter a coerência da sua ideia, tendo de cuidar da métrica rigorosa, das rimas em seus devidos lugares, leva quem os escreve a exercitar uma espécie de jogo de armar, onde a criação e encadeamento dos versos não segue necessariamente uma linearidade. Pra ilustrar com um exemplo pessoal, certa vez comecei a escrever um soneto pelo último verso.

Sim, confirmo que sonetos são de construção árdua, mas ocorre que isso me instiga, desafia. Poucas coisas são tão prazerosas para um sonetista - se me permitem falar por todos – que contemplar um novo soneto concluído e se dar conta de que ele ficou bom. Que, a despeito das dificuldades impostas pelos rigores das regras, ele conseguiu se expressar. Chego a pensar que tais “obstáculos” não raro estimulam a criatividade e as boas ideias até mesmo pra contornar as limitações.

Às vezes, por puro espírito lúdico, mesmo quando a proposição temática é densa, me imponho ainda mais rigores, como por exemplo: me propor a escrever um soneto só com palavras monossílabas, ou proparoxítonas, ou com uma única rima em todos os versos. São pequenas  transgressões que me permito, ao mesmo tempo em que crio essas regras extras.


Sonetos são uma das mais tradicionais formas poéticas. Tem tantos apreciadores, tanto seus autores quanto leitores, que seguem firmes até hoje, com relativo volume de produção, em que pese o temor que inspira em muitos poetas.


Particularmente, gosto de escrevê-los em sua rigorosa forma clássica, mas também refrescá-los com experimentações. Meu fascínio de adolescente com o tempo se transformou num prazer difícil de descrever ao construí-los, mesmo quando me ponho a mudar palavras em busca da perfeição da sonoridade e do ritmo, mudar por vezes um verso inteiro ou até uma estrofe inteira, tal qual uma mulher sedutora e atraente que no entanto se revela difícil e exigente.