Importante

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sábado, 7 de julho de 2018

Céu e chão


                           
                            

                             Poéter

Um poeta é amiúde um esteta que nos translude falando a verdade que mora em si, sem dó, em pó e cintilâncias, suas ânsias e reentrâncias, tramas e tranças do tecido no tear solar ou lunar. Um poeta é esteta, mas é quando em vez profeta sem querer, ou faz acontecer o que não é, rubis que nascem no pé, com os sentidos no não sido, com a pena da escrita feito espada, do pranto à risada, do sexo ao perplexo, do inquieto ócio ao sereno paradoxo. Um poeta é rugido de vulcão, é silvo doce de oboé, é o que vai a pé quando todos têm pressa, é dizer o óbvio às avessas, desvendar o encanto enquanto o mundo sonega tesouros e afia tesouras. Ser poeta é criar mares onde há desertos, fazer remotos lugares parecerem perto, dotar as palavras do condão que mobiliza, da precisão nessa vida imprecisa, despir o véu, tornar só um o que é de céu e chão.


Meta-bólica



Comi um poema
até o talo
e ao mastigá-lo
por entre os dentes
umas palavras
(que insolentes!)
se intrometeram
feito pingentes
num trem urbano

E eu, espartano
quis palitá-las
banir as pobres
vernaculares
dos novos lares
cuspir nos ares
Não fui tão nobre
Fui refratário
Quis rejeitá-las

Mas ao cuspi-las
involuntário
eu declamei
novo poema
do mesmo tema
que degluti
E as palavrinhas
ficaram minhas
não mais sozinhas
Comigo aqui


             

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Do mundo






                         Guerra em paz


Futebol é uma guerra, dois exércitos de duas terras. Só que na arquibancada duas raças congraçadas se misturam e urram cada qual no seu dialeto sons de devoção e afeto e assim se dá a guerra em paz, como lá atrás nunca se viu nem civil ou militar tão lúdico festejar na vitória ou na derrota, com riso e choro sem afronta nem agravo. É um tal de coreano embolado com eslavo e se um machuca o seu oponente, imediatamente se desculpa em aperto de mão. É quando o planeta do loiro e da preta para pra assistir e torcer por seu torrão. Copa do Mundo tem patriotismos e hino nacional, mas o fundamental é que é uma festa do globo terrestre e a convivência dá o tom, a leniência molda a gozação no gozado e os indivíduos lado a lado dão liga pruma só nação, uma Babel multicor celebra a paz e o amor mirando a bola, pomba branca de Picasso que esvoaça, parábola de arte em movimento celebrando o enredo da rede e do tento . Que os trumps e putins do mundo se inspirem e não mais pirem e que explosões sejam só de alegria e que um dia, a mais completa das Copas das nações seja como as copas do baralho, só e só corações.



sexta-feira, 22 de junho de 2018

Noites adentro






Noititudes


A noite, quer você note ou não, é açoite no coração, é quando os fantasmas lhe fazem crer que lhe darão o prazer de não aparecer, mas são insones, clones de si mesmos, e lhe fustigam nada a esmo, com precisão cirúrgica e obsessão metalúrgica. A noite fala baixo e por isso acende um facho no seu próprio ruído interno e é um inferno ter de ouvir angústias sem elixir, aflições como rojões, enredos de puro medo, sirenes de incêndios imaginários e tapa-ouvidos precários. Noite requer o antídoto da distração, filme na televisão, mesmo dramalhão, jogar videogame game over ninguém me ouve, comer mesmo sem fome, cismar que é o Lobisomem, apagar a luz e ouvir vozes, comer um quilo de nozes, acender a luz e a vista doer, pisar descalço na ponta de um talher e doer, querer doar pro Médicos sem Fronteiras mas à noite inteira o note trava; cochilar e sonhar que bóia em lava, acordar e cismar que a bunda tá queimada, cochilar de novo e sonhar que Torquemada lhe mostra um ferro em brasa. Só tem um alento, um unguento, uma panaceia, alívio pra cefaleia que é a noite longa e sádica feito um nazista de suástica: o desejo de escrever, de extravasar, de regurgitar toda pergunta sem resposta, o que não basta porque se posta, toda a incerteza, toda estranha beleza das entranhas, das sanhas, das manhas, pra que as manhãs ressurjam e me encontrem vivo, mesmo sem nobres motivos. Toda noite é um susto e tem um custo, mas me safo no desabafo, na escrevinhação que tem o dom de fazer um furo no escuro e vislumbrar no outro lado que ainda há dados por rolar e que o dia é sempre uma volta ao lar.





sexta-feira, 15 de junho de 2018

Em branco



Fecundação


Uma página ou tela em branco é uma tábula rasa, fundação de casa, sem solavancos, em paz, em silêncio, quieta. Fina esteta, ela convida o que tem vida a se tatuar nela e abrir janelas pro mundo o poema oriundo do fundo da alma do poeta e a página gesta em festa verso a verso o que estava submerso no inconsciente que como falo potente fecunda a página-óvulo até que, pronto, o poema vem à luz e ao encontro de quem o lerá na esquina na piscina ou no sofá e se comoverá e nunca mais será como antes, depois do poema tocante e isso graças a página vazia, aparentemente fria, esperando a epifania do autor, ato de amor entre o vazio e o cio que resulta na prenhez , na gravidez das palavras que se incorporam e crescem até que o parto acontece e o encantamento se dá.


Útero

Cúmplice, vívida página
Tácita, íntima, prática
Vítima, cínica tática
Pálida, anímica, mágica

Trêmula, tímida, próxima
Ínfima lâmina, dádiva
Física, lírica fábrica
Quântica, rústica, sólida

Lúcida lâmpada anárquica
Sôfrego, cravo-te símbolos
Risco-te, tornas-te gráfica

Rútila pétala, vínculo
Cálida, incitas-me ávida
Página, faço-te grávida





sábado, 9 de junho de 2018

Passageiros



                         Passageiros


Corpo é clausura e habeas corpus. Razão pura de Kant ou iluminura em livro de Dante? Corpo não é indolor, pois isso significaria anestesia do prazer e não é isso o que queremos ser. Corpo se divide em cabeça que pensa e corpo que sente ou o corpo pensa que é um todo que não cinde nem no findi quando se entorna cerveja morna e fica confuso o uso das partes de forma coordenada. Nada a ver isso tudo. O corpo é terreno fértil pra alegrias e não falo só do falo e suas estrepolias lúdicas e nada pudicas, visto que somatizamos alegrias com sorrisos e discursos feitos de improviso, sem contar que alegria vai pro corpo como pele e pelo que arrepia. Mas corpo tbm tem raiva e ódio como atleta que foi quarto e não subiu no pódio. Raiva faz os dentes rangerem como colchão de mola, raiva esfola a vesícula, coisa mais ridícula. Além da raiva, o medo, que muitos mantém em segredo. Medo trava, provoca tremor e suor frio e nos vemos por um fio na boca do abismo. Corpo cai, mas se levanta o pai ajuda, corpo fraqueja o filho ajuda, mão benfazeja. Corpo carrega os sentidos e mais que forma, sons, gostos e cheiros, apreende o sentido inteiro do que esse nosso companheiro de quem somos passageiros, no ir e vir, significa pro existir.