Importante

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sábado, 11 de fevereiro de 2017

Poemas de rua

Nesses tempos de tablets, smartphones e outros “gadgets”, ainda não me acostumei com escrever, criar, nesses pequenos dispositivos. Já tem alguns anos que criei o hábito de escrever direto no computador, mas a escrita à mão não abandonei completamente; num caso isolado ou outro, ainda lanço mão (literalmente) da caneta e papel, que foram meus instrumentos por longo tempo.

Mas o problema é quando não estou em casa. Romancistas e contistas são escritores eminentemente caseiros no ato de escrever. Eu diria essencialmente caseiros. A escrita deles é extensiva e contínua, ao passo que os poetas são mais fragmentários, mais econômicos e imagens, ideias, palavras vão surgindo meio atrevidas e insolentes e sem escolher hora e lugar pra “atormentar” seu atarantado porta-voz, que é o poeta. É meio como ser um repentista mais vagaroso e que cria em silêncio.

Sendo assim, o “assalto” ocorre numa fila de banco, no supermercado, correndo na beira da praia, num trajeto de carro, enfim, em situações imprevistas em que nem sempre é possível sacar o smartphone e digitar no bloco de notas.

Já me aconteceu inúmeras vezes e penso que não vai parar: ter que apelar pra minha memória. A minha sempre foi boa, mas a distração e o excesso de informação nos afeta e faz parciais desmemoriados. Mas com a poesia ocorre um fenômeno: a memória se mostra quase infalível. 

Não sei quantas vezes que, sem caneta e papel, sem celular, sem lenço nem documento, fiz estrofes inteiras, às vezes até poemas inteiros ou quase, “de cabeça”. Eu mesmo fico incrédulo e atribuo isso ao medo de perder a ideia, a palavra, o verso e esse medo me faz obstinado a ponto de reter tudo e “salvar” os versos no HD de massa encefálica. A cada trecho já “escrito” reviso, declamo mentalmente e só aí prossigo na criação.

Quando chego em casa, aflito, corro pra máquina, olho pro teclado e despejo tudo na tela, com grande alívio, nesse louco “delivery” de poemas de rua.

Não recomendo esse hábito a ninguém, o risco da perda é alto. Só que acho mais perigoso ainda cair num bueiro aberto enquanto estou correndo e ao mesmo tempo escrevendo um poema no meu celular.


O poema a seguir é um desses “poemas de rua” que escrevi sem escrever. Um poema “de mente”.
                                                                     

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Universalidades particulares


Tive de recorrer à prosa poética pra me colocar.


Habeas porcus

Nas cidades perplexidades nos campos escassos pirilampos um Chapolin do Mal Trumpolim pra famigerada fama de demolir o barraco de Obama sinal dos templos maus exemplos vindos de cima as loucuras do clima futuro sombrio como o frio novo Muro de Berlim no fim da picada texano insano enquanto no resto do mundo crianças sem esperança em nada são fulminadas pela fome ou pelos homens com balas perdidas e achadas enquanto a utopia entupia e virava entropia enquanto o pinto pia a pia pinga e ninguém nos vinga nem redime ainda bem que meu time foi campeão e essa terra não tem vulcão nem ciclone só uns clones drones e iphones e outras muambas de Cochabamba e logo é Carnaval, que mal habeas corpus sarados bronzeados...

                             

sábado, 28 de janeiro de 2017

Considerações gerundiais




O que não se pressente

O agora é o presente que a gente ganha da vida sem barganha a saída do que veio o papel amassado do passado o recreio o recheio cheio de sabor o calor que nos move mesmo se chove a nau que singra o mar e não o não que sangra sem parar feito os defeitos que não se quer relembrar agora desfeitos o presente nos é dado desmontado e a gente monta apronta aos poucos loucos pra que resulte e a gente exulte e o presente presenteia e se tece a teia de eventos sentimentos inventos sentidos de incontidos improvisos de entãos fugazes e mãos cheias de ases no jogo do logo do fogo que se sopra e ele alopra vivaz no lume e os cumes e grotões são intercalações que urgem surgem passam e o novo vem de trem de escada do nada pro mal pro bem e tal com sal ou sem now vem de surpresa incerta comporta aberta da represa

                                                                                              

sábado, 14 de janeiro de 2017

Sou neto

Sou o que chamam de sonetista, ou seja, alguém que ousa tentar escrever sonetos.


Sonetos, na forma, são poemas de 4 estrofes, dois quartetos e dois tercetos, totalizando 14 versos. Vêm da tradição literária francesa e inglesa. Shakespeare os escreveu, Pablo Neruda e Augusto dos Anjos também, entre tantos outros luminares do gênero.

Lembro-me do fascínio e do impacto estético e existencial que a leitura, ainda adolescente,  dos sonetos de Augusto dos Anjos me causou. O registro disso no meu inconsciente deve ter sido tão marcante que, mais tarde, vim a me aventurar pela escrita deles.

Sonetos são considerados, quase uma unanimidade, de feitura árdua. E não é pra menos. Os cânones que o caracterizam são precisos e rigorosos. Você tem que expressar sua ideia e emoções em exatos 14 versos, iniciados por dois quartetos e finalizados por dois tercetos. A métrica não se impõe com menos rigor. A estrutura das rimas, sua disposição ao longo do texto, até que aceita algumas variações, mas a simultaneidade disso tudo cria dificuldades para seus autores.

Manter a coerência da sua ideia, tendo de cuidar da métrica rigorosa, das rimas em seus devidos lugares, leva quem os escreve a exercitar uma espécie de jogo de armar, onde a criação e encadeamento dos versos não segue necessariamente uma linearidade. Pra ilustrar com um exemplo pessoal, certa vez comecei a escrever um soneto pelo último verso.

Sim, confirmo que sonetos são de construção árdua, mas ocorre que isso me instiga, desafia. Poucas coisas são tão prazerosas para um sonetista - se me permitem falar por todos – que contemplar um novo soneto concluído e se dar conta de que ele ficou bom. Que, a despeito das dificuldades impostas pelos rigores das regras, ele conseguiu se expressar. Chego a pensar que tais “obstáculos” não raro estimulam a criatividade e as boas ideias até mesmo pra contornar as limitações.

Às vezes, por puro espírito lúdico, mesmo quando a proposição temática é densa, me imponho ainda mais rigores, como por exemplo: me propor a escrever um soneto só com palavras monossílabas, ou proparoxítonas, ou com uma única rima em todos os versos. São pequenas  transgressões que me permito, ao mesmo tempo em que crio essas regras extras.


Sonetos são uma das mais tradicionais formas poéticas. Tem tantos apreciadores, tanto seus autores quanto leitores, que seguem firmes até hoje, com relativo volume de produção, em que pese o temor que inspira em muitos poetas.


Particularmente, gosto de escrevê-los em sua rigorosa forma clássica, mas também refrescá-los com experimentações. Meu fascínio de adolescente com o tempo se transformou num prazer difícil de descrever ao construí-los, mesmo quando me ponho a mudar palavras em busca da perfeição da sonoridade e do ritmo, mudar por vezes um verso inteiro ou até uma estrofe inteira, tal qual uma mulher sedutora e atraente que no entanto se revela difícil e exigente. 



sábado, 7 de janeiro de 2017

Quintanista

E o blá blá blog completa 5 anos. Tem casamento que não dura isso, compromisso sempromisso. Casamento aqui tem como cônjuges vocês, leitores e eu, autor. E ele tem sido bem sucedido. Mais de 50 mil visitas. Então penso que nenhuma das partes tenha sentido solidão. E nem falta de paixão, pelo menos do bardo que vos fala. Poeta que não se cala e segue atento a todo movimento, desde essa esfera azul que gira incessantemente e é nossa casa, até o sublime/profano das assinaturas humanas.


Desde o início a proposta foi conversar com o leitor, na medida do que é possível num blog. E ele tem mantido a proposta. Não sei se nas linhas e entrelinhas, nos textos e subtextos é possível perceber o prazer que me dá postar. Podem apostar, ele é grande. Parto da premissa da troca entre pessoas, não importa se autoras ou só” leitoras, que têm em comum comigo o gosto pela poesia.

Nunca quis que o blá blá blog fosse um mero receptáculo dos meus poemas e venho exercitando uma prosa que aborda variados aspectos dos fazeres poéticos e também temas relacionados com a vida, o tempo, os mistérios, as paixões humanas.

Não é um diário, mas pensando bem é meu diário de bordo. São até agora 234 posts, mas minha sensação é muito mais de qualidade que de quantidade. É meu confessionário, meu pensar em voz alta e uma racionalização das minhas emoções. Quem sabe também emocionalizações da minha razão.


Agradeço de coração aos que embarcaram e seguem embarcando nessas minhas viagens e asseguro que há outros caminhos ainda a percorrer.