Importante

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sábado, 22 de abril de 2017

Palhaçada

Sempre tive fascínio pelo circo e em particular pelos palhaços.


Palhaços povoam o imaginário de todo mundo.

Eles representam nosso lado iconoclasta, transgressor e anárquico.

O bobo da corte era uma espécie de canal tolerado que servia de válvula de escape do povo.

Os palhaços nos fazem rir. Rir de nós mesmos.

Palhaço é o menino que cresceu e continua menino, traquinas, lúdico, sem planos, sem neuroses nem medo da vida.

Charlie Chaplin foi um dos grandes palhaços da História. Não por acaso veio do circo. Encarnava, a seu modo super peculiar, a figura do “clown”, melancólica e poética. Chaplin, com seu Carlitos, encarnou esse arquétipo e enterneceu e fez rir a muitos e sua arte permanece viva com toda a sua universalidade. Chaplin foi um grande poeta sem palavras.

Como Carlitos, os palhaços sonham, se frustram, apanham, questionam, se atrevem. Mas no fundo não levam nada muito a sério. Sua irreverência nos assusta, mas nos redime. Estão nos picadeiros a nos dizer de forma explícita, mas também subjacente, que apesar de tudo a vida e a gente são pra ser felizes.


O espetáculo acaba e levamos conosco o riso e a leveza que acalenta a alma.



Na lona


No maior estardalhaço
Teatral espalhafato
O mais sério dos palhaços
arma o circo e monta o ato

E cidade após cidade
O feroz sobrevivente
mente verdadeiramente
as mentiras e as verdades

Delicado, às vezes rude
Nos imita e nos ilude
nesse jogo de espelhos

Rege a banda e chuta a bunda
Na tristeza mais profunda
faz-nos rir, velhos fedelhos


sábado, 15 de abril de 2017

Areia movediça

Não tenho (e nem acho que se deveria ter) a pretensão de ditar

regras e criar ou perpetuar normas engessantes.

Mas mesmo a indulgência tem limites.

O erotismo na arte. Com frequência se constata a areia movediça em que essa associação se converte. Perigos potenciais que rondam os criadores, à espera e espreita de um instante de distração.

Erotismo é tema oportuno, necessário, mas também é traiçoeiro e requer permanente foco no que escape aos clichês, fuja do grosseiro, contorne o piegas (sim, não só nos poemas de amor!) e passe ao largo do sacralizante.

Nunca é demais lembrar que erotismo e sexo não são sinônimos.

Texto erótico pode sim, descrever situações cotidianas, (fugindo assim do permanentemente etéreo e ou sacralizante, mas não ser banalizante na forma e na narrativa..

Erotismo não precisa redundar necessariamente em ares sérios. O lúdico é bem-vindo.

Texto erótico pode sim, ter momentos chulos, mas não a ponto de converter um texto numa pichação em banheiro público.

Bom gosto, refinamento, a fronteira do rude com o delicado, são temas discutíveis e até certo ponto subjetivos. A meu ver a mistura disso tudo e não o isolamento em elementos estanques é o que costuma desaguar no melhor que a arte erótica pode nos oferecer.

imagem: Vee Speers






sábado, 8 de abril de 2017

Sem limites.com?


O artista é, antes de mais nada, um cidadão, com suas consequentes interações e implicações. E como cidadão que é, repercute e reverbera fatos, sentimentos, sonhos, perplexidades, alegrias e tristezas, sombra e luz, desesperos e alentos.

Artistas e não artistas, dicotomicamente são diferentes e semelhantes. O artista e a arte trafegam entre limites. Não fosse assim, que impacto a arte teria, ou seja, o que ela traria de contribuição para o pensar e sentir a vida e o mundo? Cabe ao artista não só exaltar as belezas, de certa forma as confirmando, mas também provocar, tirar as pessoas de sua zona de conforto, inspirá-las. Sem este mínimo de atrevimento, a arte se reduziria a mero acessório e enfeite.

Mas dar livre vazão a essas ousadias é salvo-conduto para um proselitismo maniqueísta, por exemplo? Arte e artista são livres a ponto de propagar ódio, violência, preconceito e discriminação?

 Particularmente penso que causa e efeito não devem ser confundidos. O veículo empregado não tem “culpa” e qualquer um pode se escudar por trás da arte para disseminar suas ideias e ideais de ódio e violência, assim como pode optar pelo simples discurso direto sem veleidades pseudoartísticas.

O artista mostra saúde quando não se omite, quando toma partido e não se apresenta indiferente a causas e questões particulares e globais. Mas a arte agradece quando ainda assim não faz juízos de valor. Garcia Lorca e Maiacovski são exemplos lapidares disso.

O artista é um ser social e quem vai estabelecer e mensurar limites à sua expressão, além da sua própria consciência, serão seus pares e fruidores, seja pelo aplauso e corroboração, seja pela rejeição e repúdio.

Aí se abre uma delicada discussão sobre a legitimidade (ou sua negação) da censura e a liberdade de expressão.




Noturno

Um sino sem seu badalo
balança em total silêncio
Quisera ser um cavalo
Ele não pensa, eu penso

Um vento sopra de lado
Qual caranguejo evasivo
Carregando o mapa errado
Tesouro em vulcão ativo

Rastros na areia desfeitos
Deuses do mar são suspeitos
A lua desvia o olhar

Num centauro convertido
Mando flechas num sentido
Que voltam pra me alvejar


sexta-feira, 24 de março de 2017

Arrima



A rima é prima da música, canção quase sempre rima, repentista rima bem e fácil e veloz. Rima-se no papel e na voz, nós rimamos por instinto e tradição, rima é mnemônica até no Eduardo e Mônica. Rappers rimam feito ímã que atrai o som, rimar é bom mas Neruda, não se iluda, fez sonetos de amor sem rima alguma. Leminski e Millôr, agudo humor, puseram rima em haicais geniais, aliás Shakespeare rimava mas poeta atual manda às favas rima escrita e verbal. Rimar é o mar que ri porque o poeta remar lhe causa cócegas. Rimar às cegas é como poça no fim do escorrega mas rimar com verve o poema ferve. Rima rica rima pobre e preciosa, se a alma goza e não é pequena rimar vale a pena. Rima é facultativa mas se surge a diva ao luar como não rimar?



Devir


Dia virá
em que a ostra
porá à mostra
sua pérola íntima
Dia virá
em que Buda, Krishna, Cristo, Alá
serão um só
e ouro em pó vai revestir
os pregos do faquir
e a Aurora Boreal
Dia há de vir
em que nada fará mal
e o desigual será matiz
de todo igual que lhe é matriz
E nesse dia
a poesia se dirá

mesmo em silêncios


sábado, 18 de março de 2017

sábado, 11 de março de 2017

Etérea matéria


Somos  seres regidos pela dicotomia corporal/mental, sensação/sentimento, matéria/espírito.

A angústia predomina quando essas duas naturezas por algum motivo não se harmonizam.
Não importa  o sentido do caminho, quando o denso e o impalpável se interpenetram, vem a plenitude e a alegria.

Camile Claudel esculpe em bronze e sua pequena estátua  como que grita e explode em vida na percepção de quem a vê.
Um violinista extrai da madeira e das cordas notas musicais que invadem o ar rumo aos tímpanos dos ouvintes criando imagens e emoções intangíveis.

Nossa  porção corpórea tende a ser cartesiana, materialista, lógica, de crer no que vê, e buscando a transcendência de ver o que crê.
Afeto e tesão podem se originar um do outro.  De novo vale a via de mão dupla onde se cruzam e encontram nossas naturezas dicotômicas.

Beijar e abraçar são atos físicos que além de afetar os sentidos são plenos de energia emocional sentimental impalpável  e dotados de carga fortemente simbólica, logo, intangível.

O corpo se ressente do que lhe basta e falta, na sua contraparte corpórea, matéria que atrai matéria, mas, já querendo mesmo rimar, a alma que nos anima é etérea que atrai etérea. Então esse lado nosso mais sublime se liberta de seu veículo somático e, intangivelmente vence distância e tempo e de modo invisível cria novas realidades que nem por serem intangíveis são menos reais. Como o amor.



Os três sentidos


Mesmo que entre nós exista um mar
Três milhões de torres e portais
Dez mil anos-luz, quem sabe mais!
Não se faz preciso te tocar

Antes que o meu nome tu recordes
Já surgi veloz em pensamento
Meio suspirar e já estou dentro
Nada que é do sonho e do que acordes

O amoroso elétron toma senso
Ínfimo, agiganta o gozo extenso
E ambos são Golias e Davi

Triplo é o sentido do sentido
Corpo, mente e espírito fundidos
Pleno é o sentimento: agora e aqui