Importante

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sábado, 21 de abril de 2018

Consumir consumar



"A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo ao desuso mediático. Tudo muda ao ritmo vertiginoso da moda, posta ao serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje a única coisa que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, resultam ser voláteis como o capital que as financia e o trabalho que as gera.

O dinheiro voa à velocidade da luz: ontem estava ali, hoje está aqui, amanhã, quem sabe, e todo trabalhador é um desempregado em potencial. Paradoxalmente, os shopping centers, reinos do fugaz, oferecem com o máximo êxito a ilusão da segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, para além das turbulências da perigosa realidade do mundo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera que se esgota como esgotam, pouco depois de nascer, as imagens que dispara a metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas a que outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar no conto de que Deus vendeu o planeta a umas quantas empresas, porque estando de mau humor decidiu privatizar o universo?

A sociedade de consumo é uma armadilha caça-bobos. Os que têm a alavanca simulam ignorá-lo, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta.
A injustiça social não é um erro a corrigir, nem um defeito a superar: é uma necessidade essencial. Não há natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta."

*Eduardo Galeano, falecido em abril de 2015, considerado um dos principais escritores e pensadores políticos da América Latina do último século.


Injústria



Seres analógicos
Em mundo digital
Só digitais impressões
Seremos não mais
que teses de robôs antropomórficos
Perdidos os instintos
Vamos  ser extintos
num fatal labirinto
de eficácia industrial
Motor voraz
Extintor que faz
a vida banal



sábado, 14 de abril de 2018

Sono breve e perene



O sono é um exercício do precipício da morte praticando quando do evento da ditadura da morte não será tão dura e má sorte e cessar a respiração virá com aceitação dormir é morte leve e breve da qual se ressuscita e é mais bonita a manhã seguinte que a noite anterior quando o terror da insônia não detinha o pensar dormir é sonhar despensar e dispensar os tormentos o sono é teu momento exclusivo sem crivos tua redoma teu coma teu descanso dos ranços da rotina tua piscina de mel teu céu na terra sem guerra e cheio de paz um dia em que você pensou que dormia e não acorda mais

                                         
                                            

sábado, 7 de abril de 2018

De deuses e homens




















                                                                                                           ilustração de Ana Eliza Frazão


Em tempos do modismo dos reality shows na TV e dessa mesmice previsível de tediosa mediocridade da fórmula levada à exaustão, me ocorre que um bem mais interessante, talvez o único, teria como participantes os deuses do Olimpo.

Nada poderia ser mais representativo do humano que esse time. Lá no panteão grego, mais mítico que místico, todas as figuras arquetípicas do homem estão presentes: vícios, virtudes, perfídia, inveja, coragem, ambição, raiva, vingança, amor. Reflexo nosso e com o qual todos em alguma medida nos identificamos. E com uma consistência inspiradora. Só Zeus teria de ficar de fora, porque senão seria como o Barcelona versus o Íbis de Pernambuco, vencedor fácil já conhecido desde o início do jogo.

Deuses da perfeição, infalíveis e implacáveis, nos esmagam, oprimem, angustiam, nos fazem infelizes. Os deuses gregos nos educam, talvez, digamos, de uma forma mais Dionísio que Apolo, mais montessoriana que autoritária e severa.

E nesse BBB mythológico, acho que torceria pra Baco, o deus do vinho e pra Afrodite, a deusa do amor.  
  

                                                             

Despertando

O deus está só, assim 
Nem o vinho lhe traz paz
Imortal, vive demais
Condenado a não ter fim

Uma estrela nasce agora
Outras, prestes a apagar
Eras feito meras horas
Dói sem dor cada acordar 

Sem volúpias, sem urgências
Poder tudo e nada ser
Seus prodígios e ciências
Trazendo um quase prazer

Quisera ser bem mortal
No sangue sentir sabor
Chorar e rir por amor
Viver o essencial 

Querer, sem poder, morrer
Sua sina não querida
Sonho vão de eterna vida
com a vida que iria ter

Foi súbito o despertar
Mortal se viu de repente
Com gosto e cheiro de gente
 Sonhou ou está a sonhar?








sexta-feira, 30 de março de 2018

Rapidamente


O pensamento é o mais livre dos rebeldes com ou sem causa.       
Ele é silencioso. Não precisa necessariamente de lógica. Nada pode tolhê-lo, a não ser ele mesmo. E ele tem dons. Um bastante frequente é o de imaginar. E de criar também. Dons que o fazem poderoso. Mais veloz que a luz. Sim, porque a luz longínqua, por mais veloz, tarda a chegar, enquanto o pensamento não só chega a lonjuras mais rápido, como vai além, quando se antecipa ao que ainda não é, ainda será.

O pensamento nos apazígua ou atormenta, de acordo com escolha ou circunstância, mas seja como for, nos pertence e ninguém pode tirá-lo de nós. São nossos e só se o quisermos, compartilháveis com os outros. Assim como nossos delírios, lembranças, ideias ímpares e banais.

O medo, a angústia, saudades, são alguns sentimentos aliados do tempo na sua tentativa de nos subjugar, mas se a mente pensante prevalece, não existe veículo ou fenômeno natural mais veloz pra nos levar a qualquer lugar instantaneamente, sem que precisemos nem fechar os olhos.

Pensa só...

Rapidamente


Se à noite o tempo é lento
que inspire o pensamento
a luz que empurra o tempo
a ligeireza induz
E mais veloz que a luz
que cruza o firmamento
a mente se antecipa
ao tempo e então produz
um céu que ainda não é
a luz que então será
e cria assim do nada
a velha nova lenda
jamais predestinada
que a todos surpreenda
na senda sem estrada

E o tempo então recua
Se esquiva em ricochete
Ou finge-se de Agora
de Esfinge, de foguete
O Sol prateia a Lua
tão logo vai-se embora
Mas isso não distrai
a mente, deus-mulher
que simplesmente vai
pro mundo que quiser
em menos de um instante
pra lá do mais distante
no amanhã, no antes
montada em Pensamento
seu mais veloz invento
faz vir qualquer momento
qualquer tempo e lugar

E perto do infinito
ali no cruzamento
do novo com a memória
no âmago inaudito
o pensamento dança
encontra seus iguais
E bebem da lembrança
E vão além dos astros
em busca do não sido
E as luzes são só rastros
de pensamentos idos
etéreos viajantes
mais leves do que o ar
No escuro tão brilhantes
Pra trás e pra adiante
o tempo a derrotar

sábado, 17 de março de 2018

Do mar que não se doma




Somos marítimos. Mesmo os que vivem longe do litoral. Somos das naus, das ondas , ventanias e calmarias , sereias e divindades e por fim o cais de partidas e chegadas. Somos íntimos do mar, mesmo os que não sabem nadar. Somos desbravadores nesse palco aquático, onde o sonho e a imaginação nos leva. Mar é água e sal e seres submersos, mas é também metáfora do existir, do descobrir, do arriscar. O sangue lusitano que corre em nós, mesmo nos de aparência africana e indígena, talvez seja o inspirador dessa nossa “maritimidade”.

Mar de horizontes e do além deles. Mar dos faróis, sóis da noite clareando as rotas. Mar dos peixes que alimentam e são parábolas bíblicas. Mar dos piratas e suas pilhagens, dos almirantes e suas canhoneiras, dos surfistas, da Atlântida devorada pelo Atlântico. De geleiras imponentes e submarinos secretos. Terra, planeta água que no fundo tem terra. Que nademos sem morrer na praia. Que o mar nos inspire o amar.


Impávido



Sem medo
O rochedo
resiste ao açoite
das ondas bravias
Toda noite
Todo dia
Sentinela
do tempo
e dos temporais
Face lisa
Lapidada
por ventares
e o assédio dos mares
Como um ventre
gesta e acolhe
silencioso
todo gozo
todo canto
cada pranto
das sereias
cujo encanto
foi em vão
pelo arpão
do marinheiro
E o rochedo
Tarde e cedo
Altaneiro
Ergue o farol
Humano sol
Traçando um arco
que varre o mar
a vasculhar
rumos e barcos



sábado, 10 de março de 2018

Patuás



Quem disse que é preciso que as Forças do Mal atuem pra que não dê certo, não vingue, murche, desande, aqui, no Casaquistão ou nos Andes? Grandes são nossas forças autossabotadoras, nossas internas ditaduras a nos reprimir oprimir. Ah, as Forças do Mal! Quem disse? Crendice! Quem precisa de um carrasco a nos furar o casco, fazer a nau soçobrar, ir a pique, chover no piquenique, até só sobrar frustração e o gosto ácido e tácito de “nunca saberemos já que nem tentamos”?

Mergulhos nos entulhos perfumados, ilusão de que se viaja em carrossel que gira e vai a lugar nenhum. Pum no elevador e todos se olhando de soslaio, ah, nessa eu não caio, ei, cai sim, quando você se convence de que o Bem sempre vence e que tudo tudo tudo vai dar certo só porque a gente gostaria. Não passa de uma mania.

E cada qual erga a sua barricada, sua cerca eletrificada de cerca de mil watts, pra alimentar o ovo da serpente, elementar meu caro Watson, enquanto chove chuva e lágrimas lá fora do bunker particular de cada um.


Na nossa passividade se dilui a nossa civilidade de satélites e Idade da Pedra. Quem não tem telhado de vidro que atire a primeira perda.


Barricadas

Da embarcação
Inútil carranca
Netuno me arranca
Com um vagalhão

Tolas salvaguardas
Agarrar-se às pedras
Renegar as perdas
Fim que nos aguarda

Soerguer escudos
O temor de tudo
Flechas e veneno

Arame farpado
Alarme alarmado
Sabotar o pleno





sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Arremedos




O medo, esse famigerado. Pior que segredo congelado. Pior que bruma, que não te deixa ver porranenhuma. Medo é amedrontador, dor que não dói mas rói o ser, entorta o talher, faz o travesso virar do avesso, vira bicho de sete cabeças de quartas a terças. Medo é abrupto ou em câmera lenta, é corrupto e se deixa subornar ao luar. Medo de perder o controle, o da TV e o de si e da vida. Medo é vidro em cacos com pés descalços, medo é percalço a um metro da meta. É sombra, escombro silencioso, é sonhar com o Bozo e acordar em prantos, medo do por enquanto virar passado, porão mal assombrado. Medo é um coração dilacerado pelo desencontro, de nunca estar pronto pra começar recomeçar findar receber dar. Medo é órbita solar que gira gira e não sai do lugar.