Importante

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sábado, 27 de dezembro de 2014

Poesia não ensimesmada


Somos indivíduos e não podemos negar peremptoriamente essa nossa natureza em nome de idealizações sobre nossa elevação. Um dia seremos de novo todos um, mas isso demora e por enquanto somos não unos mas unidades. Temos um ego.


Mas não somos o umbigo do mundo, nem o sol com planetas e satélites girando em torno. É claro que o que sentimos, percebemos, pensamos e vivenciamos, passa necessariamente pelo crivo da nossa subjetividade, mas como poetas, nos cabe também exercitar o discurso na terceira pessoa, deslocar o foco da escrita para o outro, não só e sempre para o nosso eu.

Nessa nossa condição de indivíduos, a tentação de se expressar na primeira pessoa é permanente. É verdade que mesmo o discurso na terceira pessoa será sempre “contaminado” pela nossa cosmogonia, mas narrar uma história, criar um personagem, deslocar o foco para o(s) outro(s) pode ter o saudável resultado de textos onde nossa individualidade fica impressa de forma mais sutil, como, por exemplo, no nosso estilo.

Poemas na primeira pessoa estão presentes na obra dos grandes. Não há nada de errado nisso. Mas certamente, passam longe de se restringir a isso. Porque a vida, seus mistérios, agruras e maravilhas, e consequentemente os poemas, não se resumem ao Eu isso, eu aquilo, eu assim, eu assado...
Olhar para dentro, mas também para fora.






Janelas da alma

  
Por suas janelas desfilam mazelas
Piores seriam se não fossem elas
Viver no escuro, maior das sequelas
Não quer vidros negros nas suas janelas

Vigia do mundo, também te revela
Ligeira evasão, quem então era ela?
Cortina de pele, convém ter cautela
Se fecha e se abre, senha ou sentinela?

Mas quando o deus Sol, que as manhãs descongela
te vem possuir, derradeira donzela
é mais um mistério que enfim se revela

Um brilho te invade, uma cor de aquarela
e subitamente, por suas janelas
passa o que faz essa vida ser bela


sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Música falada

Já discorri, mais de uma vez, sobre a importância que dou à musicalidade na poesia. 
A escassa prosa que já produzi também foi objeto desse meu cuidado. E sinto que se um dia enveredar por esse caminho, da prosa extensiva, a musicalidade das palavras ainda vai ser meta e preocupação, mesmo que a princípio isso não pareça tão relevante em contos e romances.

Escrevo poesia sempre sob a influência, quase inconsciente, de duas outras artes: o cinema e a música. Cinema é arte singular, por ser fusão de várias formas de arte e as reúne de uma forma tão própria, que cada uma se modifica nessa simultaneidade.
O cinema tem imagem concreta e a música imagem abstrata. A música entra no cinema. Música pode sugerir imagens cinematográficas. Todo esse imaginário está presente quando começo a poetar.

A literatura é arte mais despojada na sua construção e produção. Caneta e papel, teclado de um computador, até a voz, a fala pode ser seu simples e orgânico veículo.
A música em algumas das suas manifestação quase chega a tanto despojamento, mas precisa pelo menos de uma pessoa e um instrumento musical sendo tocado. Já o cinema tem toda aquela complexidade com que todos nós já nos familiarizamos, a partir do momento em que uma plateia se assustou com a imagem projetada numa tela de um trem chegando numa estação, nos primórdios da sétima Arte.

Acredito muito em que as palavras possuem musicalidade, sonoridade musical, ainda que sem notas musicais como numa canção. É preciso estar atento a elas, às que são mais musicais e ir produzindo versos cuja combinação de palavras resulte agradável aos ouvidos. Busco isso e já incorporei isso a meus instintos poéticos. Talvez isso explique em parte a vontade que dá de musicar esses textos.

Dos deuses é um soneto em que reverencio uma dessas minhas paixões que é a música.

Dos Deuses


A música nasceu do encontro acidental
dos deuses da Harmonia, Ritmo e Melodia
A prima não verbal da ninfa Poesia
E desde então surgiu a língua universal

Na aurora humana o canto da fertilidade
Depois valsas, sonatas, sinfonias, hinos
Nos bailes, nos estádios, no bater dos sinos
Cantando a guerra, o amor, a angústia e a saudade

São cellos, oboés, tambores, saxofones
Bandoneons, guitarras, trompas, vibrafones
mudando a pulsação de forma tão veloz

A música se faz com muitos instrumentos
Nenhum deles talvez traduza os sentimentos
tão fundo e apaixonadamente quanto a voz



sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Sentidos


Você pode pegar sentidos e juntar palavras pra traduzir isso.
Mas você pode também pegar palavras e ao juntá-las, dar sentido(s) a elas.
São dois caminhos opostos pra se chegar a um resultado (in)comum: a poesia.





Idílio


O poeta

pensa palavras partidas

Pens pal part

Pensivânia

Palíndromo

Partenon...

Pluripossibilidades

A pena passeia pelo papel

O poema palpita

Pródigo

Pronto pra pulsar

Presente

Provocador do pensar

O poema tem pressa

pra nos perturbar



Assistam no Youtube o volume 2 do meu vídeo de haicais:
http://www.youtube.com/watch?v=PlHeBhsvPl8&feature=youtu.be

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Poetecetera (Intreloquidades 2)


Nem tudo o que se imagina e sente é traduzível por palavras. Um pintor é capaz de traduzir isso com pinceladas. Um mímico com gestos e expressões faciais. Um compositor, com notas, acordes.

Mas a poesia é palavra e mesmo coadjuvada por som e ritmo ainda será palavra.
E é com a palavra que o poeta expressa imagem, ideia, sensação, sentimento, movimento. Quando ocorre que as palavras não bastem, ainda que tão numerosas, ele ainda pode inventá-las. Umas totalmente novas, outras resultantes da aglutinação de duas ou mais já existentes, criando um terceiro significado.

Assim, novas imagens podem surgir e novas sonoridades. Sair da mesmice previsível e junto levar o leitor, provocá-lo, produzir estranhamentos. A poesia carrega consigo a marca de dizer as coisas de formas singulares e com isso evocar imagens, sensações e sentimentos igualmente invulgares.



Reexpiração


Tua presausença
me faz ambiguirvir
sem ti ou través
e arre! meto dardos
profétão cético
Vermelhos ferrões
de avescorpião de apenas quinta

Tua aupresência
me faz verborragir
sentimentalvez
e conturbardo
poetecetera
versejo versões
do que vale a pena e a tinta

Tua disproximitância
me perturva os sensos
taquicarde a pele e o pulso
vigília meu insono
soporifera mansa, as manhãs
Teu cheiro entrincheirado
entre meus dedos tatolfatos
Tua voz em pressa nas minhas retinas
arco-audiris furta-coração

Em arroubos furtivos
desato em nós os nós
do ex-passo-o-tempo linear
Homemória que tudo evocaliza
e sim tetiza em gula
em sim gular sabor


De novo compartilhando com os leitores o making of  de um poema: trabalhei sobre antíteses e paradoxos e recheei o texto com neologismos resultantes de aglutinações de duas ou até mais palavras já existentes, buscando novos sentidos e com isso, pelo estranhamento sonoro e semântico, acentuar os paradoxos e a angústia do narrador com o permanente impasse da presença ausente e/ou da ausência presente da amada. Daí as presausenças, aupresências e disproximitâncias, duplos sentidos que traduzem o sentimento ambíguo.





sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Per-mito-me o pri-mitivo


Escrever com uma visão pseudocientífica, para além da irreverência de ideias e palavras, faz referência ao primitivismo humano, à visão mais pura e “pagã” da vida, da Natureza e do Universo, em contraponto com um contemporâneo e mais massivo cientificismo cartesiano. 

Mas um primitivismo revisitado por um ser pensante e que lança um olhar para os mitos e o encantamento que eles carregam e dos quais de forma paulatina nossa civilização racionalmente foi se afastando. 

Pela via do lúdico, procuro essa desconstrução do apolíneo pelo dionisíaco, pequenas provocações conceituais semânticas. Uns despudores que me per-mito.



                                                                                                                  Litogravura de Ana Eliza Frazão


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Manancial de Barros


E nosso tão amado Manoel feito do barro das estrelas se foi. É óbvio o nosso pesar, mas que seja igualmente óbvio nosso contentamento e gratidão pelo privilégio de ter um artista tão sensível e original, falante da nossa língua. Fomos presenteados – espero que o mundo todo, com as traduções – por muita beleza. Que nosso pranto pela grande perda seja coadjuvado por um sorriso como os tantos sorrisos que o mestre exibia no rosto.

Há pouco mais de um ano, escrevi um poema em homenagem a ele e por um capricho do acaso, através de uma amiga, fi-lo chegar a Martha, filha do grande poeta. Ela o leu para ele, que sorriu enquanto o ouvia. Um momento muito comovente pra mim e que nunca vou esquecer.


Nosso heroi morreu de overdose de poesia, emoção e beleza e continuará, adulto menino e gênio que foi, pra sempre nos inspirando a viver.

“Escrever nem uma coisa nem outra -
A fim de dizer todas -
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.”

“Quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas - é de poesia que estão falando.”

“Poesia é voar fora da asa.”

“Tudo que eu não invento é falso”

                  Manoel de Barros


Nosso menestrel, homem que nunca deixou o menino que o habita desde menino mesmo, ir-se com o tempo, deixar de sê-lo, escreveu seu primeiro poema aos 19 anos e publicou o primeiro livro aos 21, com a ajuda de amigos, que artesanalmente produziram 21 exemplares, um dos quais ficou com o próprio autor.

E só seis décadas depois,  já com 81 anos, foi nacionalmente reconhecido ao ser agraciado com o Prêmio Nestlé de Literatura em 1997!

Mas desde cedo, Manoel garimpa e molda suas invenções, com seus modos peculiares de falar das coisas da Natureza, pássaro, flor, árvore, rio, simplicidades da vida, com desconcertante originalidade. Pássaro canoro gorjeando sobre seus iguais. Flor pantaneira exalando poesia de puro encantamento.

Seus sublimes desatinos, que brotam da pena e dos poros, nos extraem sorrisos, nos renovam, enquanto ele reinventa tanto a Natureza quanto a poesia com ideias e imagens que parecem um manancial interminável.

A auspiciosa novidade é que ele será um dos indicados brasileiros ao Prêmio Nobel de Literatura, jamais entregue a um escritor do nosso país.

Mas mesmo que ele não seja o premiado, nós, que amamos a pessoa e o poeta vamos seguir premiando-o da forma despojada que ele preza, espalhando sua poesia por aí.

(Vejam o belo documentário sobre Manoel, chamado Só dez por cento é mentira. Vale a pena e se encontra nas locadoras.)




sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Pequena ode às manhãs


Manhãs...amo-as. Tão sãs. Cada uma é um prenúncio, a anti-renúncia.
Não à toa a manhã é boa até no frescor que nos traz, vapor chegando ao cais portando o novo, outro ciclo, bico que quebra a casca do ovo, laranja e azul matizando a paz silenciosa e capaz, que inaugura o novo dia, epifania do banal elevado a transcendental, profano e sagrado lado a lado e sem juiz, coisa feliz, linda e bem-vinda, recomeço, que não meço, riso sereno e reverente à deusa manhã, da alegria, a mais sã do dia.

                                                                                      

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Crônica de uma nasalidade crônica

O poeta pede licença aos queridos leitores do blablablog pra postar uma crônica experimental com a forma. Grato pela indulgência de todos!


A Carlos Menem e Richard Nixon (in memorian)


Se a boca, além de falar e cantar, é também para comer e abrir para beijar e a língua lamber e sentir os sabores, as funções do nariz não são de se menos prezar.

Então pensei em render homenagens às palavras com fonemas nasais.

Temo que tal sonoridade predominante redunde numa expressão um tanto constipada, mas como não enfatizar as nobres funções nasais sem incluir os sons anasalados mesmo que nos remetam a uma ladainha meio fanha?

Nariz, que alguns chamam de ventas, é pra sentir os aromas, inclusive os instintivos e imperceptíveis feromônios que geram atração nas fêmeas e nos machos, tanto mutuamente quanto em determinadas circunstâncias, também entre si.
Mas os narizes, em alguns rincões do planeta, bem ao Norte, servem também para manifestações de carinho, quando friccionados um no outro, como naquela nação esquimó cujo nome não consigo me lembrar neste instante. Tenho para mim que a Groenlândia não é. Bem, penso que não vem ao caso a localização. A questão é que o nariz tem múltiplas e importantes funções.

Mais um exemplo da importância deste nobre órgão: ele nos enseja a ingestão e nutrição do oxigênio presente na atmosfera, quando da inspiração, ao mesmo tempo em que impede parcialmente a entrada de alguns elementos nocivos ao bom funcionamento dos pulmões e do sangue e do organismo inteiro, em última instância. Eu tinha completa razão, como podem notar.

Vendo por outro ângulo, esteticamente falando, os narizes, proeminentes que são e tão diferentes entre si, dotam os semblantes humanos de muita singularidade, sejam aduncos, aquilinos, monumentais, ínfimos, pontiagudos, arredondados, com as narinas arreganhadas, vincados pela ação da passagem dos anos, enfim, além de, social e antropologicamente falando, se constituírem em genuínos sensores de proteção, para quando, simbolicamente falando, algo não cheira bem no ambiente, porque o nariz sempre chega na frente do resto da gente (com exceção de algumas panças avantajadas que o superam em matéria de antecipação, mas deixam a desejar com relação à função de proteção em emergências e constrangimentos inesperados).

Mas me lembrei de um item fundamental. Não fossem os tímpanos, responsáveis pela percepção dos sons, nada aqui neste pequeno ensaio faria sentido, conquanto não teríamos audição nem para os sons nasais nem para som nenhum, num arremedo de mundo silencioso, como se nele só existissem netunos e cardumes submersos.

Embora isto pretenda ser uma crônica, a homenageada nasalidade vernacular e seu órgão mór, não podem ser confundidos com uma doença crônica e portanto, convenientemente auto-detonar-se-á em alguns segundos mais.
E antes que aconteça, só posso me comprometer com uma continuação que examine os outros sentidos, mas prometendo (ou ameaçando) só usar palavras não nasais pra falar, por exemplo, do tato, que aliás é palavra oral não nasal.

Será que é possível? Oba! Olha aí uma frase inteira não nasal...

Será que faz sentido?

Vou tentar ter tato. Aguardem contato (Êta, nasalidade recorrente!). Recorrente? É nasal também! Quem aguenta? Desisto! Esta é oral! Viva!

Será que o outro texto já começou?



sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Paixão pelas paixões


Sou um libriano que sempre ouviu o clichê que atribui aos nascidos sob esse signo equilíbrio. Na verdade os librianos buscam esse equilíbrio que é dinâmico e inconstante, como aliás a própria vida. A busca é que nos norteia e motiva, não a preservação de um equilíbrio inato e pré-existente.


Dentre essas oscilações humanas, tem relevo a paixão.  Somos desde sempre movidos a paixões diversas, não só a romântica entre duas pessoas. As paixões humanas moveram a História, determinaram rumos sociais e políticos, produziram marcantes avanços científicos e grandes obras de arte, tudo bem representativo do espírito do Homem.

As paixões nos iluminam ou nos empurram abismo abaixo, ou seja, desequilíbrio puro (ou impuro?). Tem algo na gente que nos impele a isso, como se no fundo precisássemos de extremismos pelo menos esporádicos pra nos sentirmos vivos. Os monges orientais certamente não se identificariam com esse texto, mas talvez eles sejam exceções nesse nosso mundão de sete bilhões de almas.

Por paixões, morre-se, inventa-se, viaja-se, jejua-se, enlouquece-se, descobre-se, trama-se. E até mesmo escreve-se ardentes e arrebatados poemas de amor! Amores amenos produzem também suas histórias e poesia, mas não creio que se situem entre os melhores textos poéticos desse tema tão recorrente na Literatura mundial.

O poema que escolhi com certeza não é dos meus mais derramadamente amorosos, mas tem veemência e um tom de revolta passional vertido no chamado discurso direto, onde o autor se dirige ao outro e traz também umas “pegadinhas” semânticas que lhe dão uma certa irreverência que contrasta com a virulência que o permeia. A começar pelo próprio título de duplo significado.




Desvenda


Intruso, saltimbanco
Irado, anjo torto
Invado e te arranco da zona
de conforto
em que te encontras
sua tonta
Bem no cais do porto
seguro, cercado de muros

Se a vida te clona
Faz de ti outra quase igual
Te trago de volta à tona
Que quero a original





quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O eu lírico e eu...


Somos herdeiros da tradição romântica, marcadamente na Literatura e no Cinema, com seus heróis, vilões, romances, idealismos, maniqueísmos e finais felizes e amores eternos. Um dos subprodutos disso que perduram é confundir autor e obra. O Ernest Hemingway de O velho e o mar e Paris é uma festa, brigava, bêbado, nos bares. Álvares de Azevedo, que morreu ainda muito jovem, escreveu inúmeros poemas de amor, todos imaginados, nunca realmente vivenciados.

Não se pressupõe um solitário quase misógino, lendo os apaixonados poemas de Álvares de Azevedo.  Não se depreende um arruaceiro brigão ao fruirmos os romances de Hemingway.

Isso remete à questão do Eu lírico – Álvares de Azevedo é um perfeito exemplo disso – onde o autor não se coloca de forma real, não expressa seus sentimentos genuínos e assume o papel de um narrador, de um contador de histórias que relata sentimentos. Em função da nossa tradição romântica, a tendência é que o leitor funda o poeta e a pessoa numa só entidade e daí depreenda tons e intenções confessionais, quase documentos, de muitos poemas que, no entanto, expressam situações e sentimentos apenas imaginados, onde o autor está interessado e motivado a falar de sentimentos, a emitir conceitos, a narrar situações pelo menos não diretamente relacionadas com suas experiências pessoais, ou seja, onde predomina o eu lírico. O que não significa, é claro, que eu e todos os poetas não produzamos textos que traduzem nossas vivências reais.

Com frequência, diante da leitura de um poema de amor meu, ouço a já tradicional pergunta: “tá apaixonado?”,  “pra quem você fez esse poema?” E, não raro, encaram com ceticismo minha explicação: tô, por alguém que imaginei quando escrevi o poema...”. 

Os versos finais de um soneto meu ilustram isso:


“Cada alegria custa mil enganos
e vezes mil mentiras de poeta”





quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Eu Ele Nós Eles


Recentemente participei de uma conversa com assuntos bem pertinentes pra poetas, como eu lírico e eu real, rimas, métrica e versos livres, metáforas, prosa poética, poesia na primeira e na terceira pessoa e coisas que tais.

No que concerne a esse último tópico, escrita na primeira e na terceira pessoa, me posiciono com a tranquilidade de quem tem um ponto de vista crítico sem no entanto se excluir disso. Tenho não poucos textos escritos na primeira pessoa, mas penso que há que cuidar de não fazer disso o imensurável território da poesia autorreferente, poeta tão enamorado do seu próprio umbigo que o faz de referência narrativa.

Existe também uma discussão interessante, que contrapõe essas duas formas narrativas e há quem afirme que quanto mais o autor fala de si, de seu microcosmo particular, mais universal se torna. Visão controversa, é claro, mas ainda que seja legítima, nem por isso devemos enveredar pelo desenfreado “eu isso”, “eu aquilo”. A repetição disso tende a ser meio enfadonha. Embora, como já disse, eu tenha poemas narrados na primeira pessoa, simpatizo mais com os feitos na terceira pessoa. Penso que a poesia pode ser assim sem com isso ser impessoal. O eu real pode estar presente, só que de forma mais indireta e sutil. Em geral resulta em textos mais elegantes e menos arrastados.

Nem por isso vou abdicar de escrever na primeira pessoa. Tem temas, momentos, poemas que adquirem tom mais confessional quando escritos assim. Mas vou seguir cuidando de não cair na armadilha e na tentação de achar que tudo que é importante gira em torno de mim, do meu ego, da minha percepção e sentimento do mundo. Tem tanta gente, tanta coisa, tantas situações pra se discorrer, pro poeta criar só como se a vida e o mundo não fossem mais que uma imensa sala repleta de espelhos.






quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Clichê: fast food poético


Certos temas, para a poesia, acabaram se tornando “perigosos”. Por terem já sido muito abordados, no rumo do esgotamento e precisando de reinvenção. O amor talvez seja dentre todos o mais visitado, Quem não quer falar de e do amor? E o que ainda não foi dito sobre o amor? Tem?





Temos um dilema? O amor seria tema importante o suficiente para legitimar todo e qualquer “mais do mesmo”? Ou valorizar o tema passaria justo pelo oposto, ou seja, buscar modos originais de exercitá-lo, com releituras?

Mas o amor não é único tema recorrente na poesia. Tristeza, solidão, a Natureza, a vida, as estrelas, a lua, enfim, são assuntos muito frequentados pelos poetas e na esteira dessa assiduidade vem a confusão entre o simples e o banal, o despojado e o previsível, o singelo e o clichê.

Mestre Manoel de Barros é um luminar exemplo de uma poética da simplicidade aliada a imagens inesperadas e nada banais e que resultam encantadoras.

A palavra clichê (já até virou um clichê usar e abusar dela) vem do jargão das gráficas e jornais e é um molde com tipos, letras. Seu uso repetitivo levou a essa expressão, que significa lugar comum. 

Então a tentação de recorrer ao lugar comum, ao clichê, na poesia está sempre latente, É como se seu emprego colocasse o poeta numa situação de conforto, que não detivesse o fluxo livre da sua emoção com elaborações racionais em busca da imagem e ideia não pronta.

Uma metáfora inesperada, uma palavra pouco usual, outra deslocada do seu sentido habitual, são alguns recursos que podem ser utilizados para se fugir dos clichês, da mesmice do já visto e já dito. Preparar o prato no fogão, sem apelar pra comida comprada congelada. Fugir do pouco nutritivo e pouco saboroso clichê, o fast food poético, comprado pronto.



Faces 

Viver
Trânsito e transe
Âmbito e vácuo
Prazer e dor
Fagulha e breu

Dizer
Ventos e espelhos
Fontes e flechas
Cernes tangências
Medos coragens

De ser
Âncora e bolha
Cúmulo e grota
Lampejo e túnel
Pausa e tropel