Importante

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sexta-feira, 6 de março de 2015

Poerria

Pra muita gente, a poesia é o território grave e solene da seriedade, mesmo para leitores habituais de poesia. É meio como se um texto poético só tivesse legitimidade e nobreza no sério, no dramático, no compenetrado, no profundo e circunspecto, sisudo.


Claro que não tenho nada contra nada disso; eu mesmo recorro a esses vieses em meus textos, mas sou avesso a receitas, tanto na poesia quanto na vida, com exceção da culinária, portanto não me furto a canalizar quando em vez, ao poetar, minha veia humorística.

Não sou dos que pensam que o humor deve se exilar nas crônicas, nos sketches de comediantes no teatro e na tv, nos repentes nordestinos (que considero tão poesia quanto a dos poetas consagrados), ou nos textos publicitários. O território da poesia é vasto o bastante para abrigar várias nuances de significante e significado, variados enfoques e temáticas. E a do humor não faz a poesia ser menor. É perfeitamente factível a boa poesia com laivos cômicos, basta ter a medida, ter o senso dessa medida.

Na verdade, o humor na poesia é exercitado também pelos grandes e consagrados autores, só não frequentemente, não é raro constatar isso num Shakespeare, num Drummond, isso sem falar nos mais contemporâneos, como Arnaldo Antunes e Leminski.


A vida é séria e engraçada e a poesia, como reflexo e tradução dela, pode e deve atravessar todos os matizes de tristeza, choro, angústia, ironia, lirismo, alegria e riso desse largo arco-íris que indica o pote de ouro poético em seu final.




sábado, 28 de fevereiro de 2015

Sem receita


O amor, quando é real e não algo que só nos parece ser, é experiência pessoal e intransferível. Por isso mesmo não cabe em fórmulas, receitas. A experiência de um indivíduo não se aplica a outro. Cada pessoa tem seus próprios conceitos – e por que não, também alguns equívocos – a respeito do amor.

A palavra amor, significante, com frequência ganha mais importância do que ela significa e representa. O que se vê é o abuso da palavra e com isso a banalização tanto do significante quanto do significado. Usa-se a palavra como uma espécie de coringa e panaceia pra quase tudo. A expressão fazer amor virou um sinônimo de ter relações sexuais. Não há nada de condenável em tê-las “sem (ou mesmo com) amor”, mas no ideário vigente para a maioria, parece que tudo tem que pelo menos aparentar amor.

Amor tem licença poética. Ou pelo menos deveria ter, sem ser uma exigência, ser essa entidade opressora. Não é à toa que tantos se assustam com a sua possibilidade, seu advento, seu prenúncio.

O amor não é uma coisa abstrata, perfeita e redentora que teimamos em pensar que é. Muitas frustrações e decepções se devem às nossas idealizações distorcidas. Porque o amor que a gente espera é um constructo nosso, que nos leva a forjar grandes expectativas. É como ir assistir a um filme esperando que ele vá ser a resposta definitiva para os nossos anseios, desejos, sonhos e sair do cinema com a sensação de que aquele bom filme era só propaganda enganosa.

Precisamos estar abertos. Como tudo que é novo, o amor como ele é – e não o que a gente vive antecipadamente na nossa fantasia – nos causa estranhamento, e aquele constructo prévio, em outras palavras, nossos preconceitos a respeito, que só nos levam aos desencontros, deve se transformar numa experiência a quatro mãos, dinâmica, vivenciada não no “pré” e sim no “durante”, com as nuances do aprendizado, da entrega, da aceitação, da interação. Sem receitas nem moldes genéricos.


Ah, morosos...

Tem o amor e o amor
Um que nos faz livres
Outro que é de nós senhor
Um não exige em retorno
O outro nos prende num forno
O amor que a gente cria
é muito mais fantasia
Cão correndo atrás do rabo

O amor não é um raio
que atinge o coração
Amor não provoca desmaio
Debite isso à paixão

Tem o amar o amor de quem nos ama
e o eu te amo em plena cama
O amor ideal
nunca é o amor natural
O amor demora a surgir
e mais ainda a partir
O da razão nos frustra
O visceral se incrusta

Não se afobe
Amor não aceita lobby
Não se apresse
Guarde o coração
O amor acontece
ou não




Assistam no Youtube o vídeo com haicais meus:
http://www.youtube.com/watch?v=PlHeBhsvPl8&feature=youtu.be

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Quase tudo



  A poesia, sua linguagem, pode ser metafórica, delirante, lúdica, pode até ter teor de relato.

Ela pode ser singela, rebuscada, ser consonante ou assonante.

Pode ter prevalência do significado sobre o significante ou do significante sobre o significado.

Pode pretender perturbar ou enlevar.

Pode ou não, mas deveria ser sempre musical nas suas sonoridades e no seu ritmo.

Poesia rima com epifania e às vezes é produto delas, epifania e rimas.

É também mergulho. De quem a escreve e de quem a lê.

Poesia não é bula e também não tem contraindicações. Mas tem efeitos colaterais que produzem mutações líricas e oníricas.
Poesia, embora seja feita com letras, não é para ser entendida ao pé da letra. Isso provoca chulé literário (mas não literal). 



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

À mão livre


Mágicos, mímicos, dentistas, ourives, pintores, jogadores de basquete, escritores, surdos...o que têm em comum? A necessidade de usar as mãos. E de que elas sejam hábeis.

Esses tempos de crescente automação ainda vão demorar a tornar as mãos uma parte obsoleta do corpo. Até porque mão não existe pra funções utilitárias. Ainda prefiro as minhas fazendo um afago, uma carícia, parabenizando alguém, que pilotando um controle remoto de um televisor ou um mouse.

Mãos são versáteis e democráticas. A proletária cimenta um tijolo, a nobre assina a Lei Áurea, a de um médium psicografa, a do músico nordestino toca rabeca e a da criança teca a bola de gude que se confunde com o brilho dos seus olhos focados no seu prazer.

Até há poucos anos eu escrevia meus poemas “à mão” e tenho pequenos cadernos de capa dura repletos de poemas, manuscritos com a ajuda da minha inseparável caneta Lamy de carga inacabável (será que caneta de poeta se embriaga de poesia, vicia e não quer mais parar de escrever?). E mesmo hoje usando teclado, ainda me permito às vezes o antigo prazer da caneta deslizando no papel. Mas ainda são as velhas e boas mãos que digitam. Ainda não escrevemos no computador com um simples comando mental.

Queria dizer isso gesticulando, mas aqui só posso escrever e é por escrito que vou poetar sobre as mãos...


À mão livre

Mão
Pra que serve?
Mão que serve
que alimenta
contorno
cumprimenta
Mão que acena
Mão que apenas
um toque
leve como pena
de beija-flor
beijando a flor pequena

Mão que esculpe
que modela
Mão que investe
Mão que veste
em si, a luva
Que desnuda
Que desvenda
toda a alma
Mão que acalma
que estimula
com o dorso
com a palma
Mão que anula
todo medo
Mão tem dedo
Digitais
Tem afeto
Mão traz paz

Mão que ajuda
sendo dura
sendo mole
Mão que escolhe
Mão que cura
Que garante
Passa adiante
o anel
da brincadeira
Mão inteira

Mão que conta
Que aponta
o caminho
Faz carinho
Mão que livra
Mão que lavra
Mão que indica
que a chegada
é um ponto
de partida
Mão que, muda
vai narrando
os mistérios
dessa vida


quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Desagravo à poesia


Outro dia vi um sujeito dando entrevista no programa do Jô. Não vou citar o nome, mas o que importa é que ele, crítico literário e tradutor, se referiu de forma despudorada, à poesia com menosprezo, chegando a ponto de argumentar que os vencedores do Prêmio Nobel de Literatura são todos romancistas.


Enquanto assistia a isso com desgostoso espanto, me pus a refletir sobre umas questões. Primeiro me perguntei o que, por exemplo, o grande poeta Pablo Neruda, PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA DE 1971, estaria sentindo, não pela omissão do seu prêmio, mas por esse ataque generalizado à arte que ele tão bem exercitou e amou. Estendi isso a Drummond, Bandeira, Cecília, Quintana, Cabral, Hilda Hilst, Manoel de Barros, Pessoa, Gullar, os já idos e os ainda conosco aqui e os vi tristes com isso, como eu.



Depois de décadas de resistência de uma maioria à poesia, vista como a prima pobre da família Literatura, o advento da Internet começou a mudar esse panorama, porque a democratização tanto da informação quanto dos meios e modos de produzir essa informação possibilitaram que a poesia finalmente ganhasse visibilidade e isso contribuiu muito para que ela fosse aos poucos deixando de ser vista como coisa chata e piegas, como veículo para o mero sentimentalismo. Na verdade a poesia nunca foi isso, mas o preconceito assim a retratava.



Terreno novo parcialmente conquistado, concursos de poesia se espalhando pelo ciberespaço e pelos espaços físicos do país, assim como os saraus ficando populares e os lançamentos de livros de poesia ficando mais frequentes, resistências cedendo e aí aparece uma pessoa do meio, crítico literário e tradutor, que teria por dever de ofício até, ser agente dessa transformação, mas, ao contrário, destila preconceito e desprezo pela poesia.



Nosso querido gênero literário, a despeito dessa discriminação rasa, tem suas singularidades e encantos que a legitimam e nivelam a qualquer outra forma literária. É essencialmente a linguagem da supressão, econômica, onde o máximo tenta ser expressado com um mínimo de palavras. A prosa não busca isso. Nas formas usuais de prosa não há a preocupação com a concisão minimalista, com ritmo e sonoridade. Com todo o estilo através do qual um contista, ensaísta, cronista ou romancista se manifesta, raramente está em seu foco esse conjunto de recursos que caracteriza a poesia. Salvo as raras exceções de gênios inovadores da linguagem, como um Guimarães Rosa ou um Jorge Luis Borges.



A poesia, gostos à parte, é gênero literário que nada deve a nenhum outro, mesmo que nunca venha a produzir best-sellers em série. E é muito maior que pessoas que a destratam publicamente. Vida eterna à poesia!




Nascimento


Fruto do instinto
e da intenção
No pós-parto
Farto e sucinto
o poema jaz aflito
na solidão do quarto
Ali, escrito
Enquanto a pena 
ainda em cena
solerte, repousa

E ele ousa ler-se
com olhar esguelho
no espelho, refletido
Sentidos na contramão
Amor ou Roma?
Alma ou lama?
Ao menos o viver “reviv”
e o leitmotiv
sobrevive intacto
no poema neonato

O autor regressa
A agonia cessa
E enfim o poema
salta do silêncio
ganha a voz do dono
desperta do sono
onde pré-existia
vem à luz do dia
lambuzar a vida
de mais poesia


sábado, 24 de janeiro de 2015

Poemúsica

A música emula a vida, ao pulsar. Canções de ritmo mais marcante e marcado e constante ecoam e entram em ressonância com as batidas do coração e nos fazem querer mexer o corpo, bater palmas ritmadamente, balançar os braços, pular, até.
Mesmo as mais plácidas traduzem nossos momentos mais meditativos e contemplativos e suspiram, com notas prolongadas e timbres aveludados. Do Carnaval, rock e funk às valsas, choros e Canto Gregoriano.

Assim também é a poesia. Ela também tem seus pulsos, sons, musicalidade. Os compositores que não escrevem poesia ou letras de música sabem disso e valorizam muito um poema ou letra com o que se chama de boa rítmica e repletos de palavras com boa sonoridade e musicalidade. Grande parte das melhores canções já feitas são produto do casamento entre letras que além de conteúdo e belas imagens poéticas, são dotadas de rica sonoridade, com melodias, harmonias e ritmos que, além de inspirados, traduzem e valorizam musicalmente esses textos.

Recorri à poesia para reverenciar outra das minhas paixões: a música. Procurei urdir versos que, além de criar imagens descritivas da música, passassem isso também de uma forma mais sutil, com a rítmica, a métrica em redondilha maior e palavras sonoras e com isso, o ato de escrever esse soneto me trouxe a sensação de estar compondo música. Chamei-o de Cantochão, que é o canto gregoriano, monofônico, entoado nos mosteiros e que é a base da música ocidental.

Uma música que nos toca, mesmo que não tenha palavras, pode ser pura poesia. E um poema tocante, mesmo sem notas musicais, pode soar muito musical. Já pensaram em que comumente falamos em “tocar” um instrumento ou que uma música está “tocando”? Se for uma canção então, letra e música, ela toca duplamente.


                                                                               

Cantochão



Rendo-me a ti, fluidez
Não me destrói teu poder
Só me dilata o prazer
que leva e traz lucidez

Amo-te, lírica ou densa
Velhas cantigas de roda
Teus lundus fora de moda
És concretude e presença

Índio dançando Ravel
Callas cantando Gardel
Tímpanos do coração

Música, és musa de mim
Nunca ouses ter um fim
Sou teu monge em cantochão



sábado, 17 de janeiro de 2015

Duas faces, uma só moeda

Não costumamos simpatizar e aprovar ladrões,
fora-da-lei em geral. Nossa civilização, salvo em raras culturas que fogem a essa regra, se apoia numa visão polarizada das coisas. Uma das principais polarizações que aparentemente servem pra agregar sentido ao viver é Bem versus Mal. Nossa tendência a uma visão rasa e simplista nos leva a acreditar que esses são extremos excludentes um do outro. Ou seja, se você não é do Bem, fatalmente será do Mal.

Sem dúvida é um conceito e visão que menospreza nossa complexidade humana. Não somos plasmados só em coerências, retidão e estabilidade. A arte talvez nos desvele isso da forma como melhor assimilamos: pela emoção.
Amamos, odiamos, damos vexame, invejamos, nos encantamos, temos fúria, apatia, somos infantis e matusalêmicos. Tudo pelo simples fato de que somos humanos.

Outro dia assisti um filme, um thriller de suspense, onde a narrativa levava os espectadores a torcer pro vilão. O cinema, assim como a Literatura, tem esse dom de nos dirigir, de certa forma nos manipular a ter empatia pelo que está próximo e de certa forma nos identificamos, ainda que de forma inconsciente, com o personagem que transgride.

É quando nossa visão maniqueísta do Bem contra o Mal cai por terra. O mito dos que são sempre só bons e dos que são sempre só maus se dilui, sai de cena, pelo menos até que o filme acabe e as luzes se acendam, ou a última página do romance seja lida e o livro fechado, quando então voltamos ao nosso arraigado padrão do herói derrotando o vilão e nos redimindo.

E a vida segue com suas máscaras de coerência idealizada, de onde vazam nossas contradições, nossos medos e angústias irracionais e até mesmo nossa meninice lúdica aprisionada em corpo adulto pela nossa cultura do contermo-nos.


Dual

Quando amo e quando odeio
Coronárias e neurônios
Meio anjo e demônio
Me revelo ou me refreio

Sou vilão, herói, refém
Sou cruel, maniqueísta
Solidário, altruísta
Sou do Mal ou sou do Bem?

Sou xamã, pagão, judeu
Apostólico romano
Rezo um terço e mato Deus

No vitral, santo profano
Hóstia em boca de ateu
Dualidade é ser humano