Importante
Todos os textos do blog, em prosa e verso, a não ser quando creditado o autor, são de minha autoria e para serem usados de alguma forma, necessitam de prévia autorização.
sábado, 21 de janeiro de 2017
sábado, 14 de janeiro de 2017
Sou neto
Sou o que chamam de sonetista, ou seja, alguém que ousa tentar escrever
sonetos.
Sonetos, na forma, são poemas de 4 estrofes, dois quartetos e dois
tercetos, totalizando 14 versos. Vêm da tradição literária francesa e inglesa.
Shakespeare os escreveu, Pablo Neruda e Augusto dos Anjos também, entre tantos
outros luminares do gênero.
Lembro-me do fascínio e do impacto estético e existencial que a leitura,
ainda adolescente, dos sonetos de
Augusto dos Anjos me causou. O registro disso no meu inconsciente deve ter sido
tão marcante que, mais tarde, vim a me aventurar pela escrita deles.
Sonetos são considerados, quase uma unanimidade, de feitura árdua. E não
é pra menos. Os cânones que o caracterizam são precisos e rigorosos. Você tem
que expressar sua ideia e emoções em exatos 14 versos, iniciados por dois
quartetos e finalizados por dois tercetos. A métrica não se impõe com menos
rigor. A estrutura das rimas, sua disposição ao longo do texto, até que aceita
algumas variações, mas a simultaneidade disso tudo cria dificuldades para seus
autores.
Manter a coerência da sua ideia, tendo de cuidar da métrica rigorosa, das
rimas em seus devidos lugares, leva quem os escreve a exercitar uma espécie de
jogo de armar, onde a criação e encadeamento dos versos não segue
necessariamente uma linearidade. Pra ilustrar com um exemplo pessoal, certa vez
comecei a escrever um soneto pelo último verso.
Sim, confirmo que sonetos são de construção árdua, mas ocorre que isso me
instiga, desafia. Poucas coisas são tão prazerosas para um sonetista - se me
permitem falar por todos – que contemplar um novo soneto concluído e se dar
conta de que ele ficou bom. Que, a despeito das dificuldades impostas pelos
rigores das regras, ele conseguiu se expressar. Chego a pensar que tais
“obstáculos” não raro estimulam a criatividade e as boas ideias até mesmo pra
contornar as limitações.
Às vezes, por puro espírito lúdico, mesmo quando a proposição temática é
densa, me imponho ainda mais rigores, como por exemplo: me propor a escrever um
soneto só com palavras monossílabas, ou proparoxítonas, ou com uma única rima
em todos os versos. São pequenas
transgressões que me permito, ao mesmo tempo em que crio essas regras
extras.
Sonetos são uma das mais tradicionais formas poéticas. Tem tantos
apreciadores, tanto seus autores quanto leitores, que seguem firmes até hoje,
com relativo volume de produção, em que pese o temor que inspira em muitos
poetas.
Particularmente, gosto de escrevê-los em sua rigorosa forma clássica, mas
também refrescá-los com experimentações. Meu fascínio de adolescente com o
tempo se transformou num prazer difícil de descrever ao construí-los, mesmo
quando me ponho a mudar palavras em busca da perfeição da sonoridade e do ritmo,
mudar por vezes um verso inteiro ou até uma estrofe inteira, tal qual uma mulher
sedutora e atraente que no entanto se revela difícil e exigente.
sábado, 7 de janeiro de 2017
Quintanista
E o blá blá blog
completa 5 anos. Tem casamento que não dura
isso, compromisso sempromisso. Casamento aqui tem como cônjuges vocês,
leitores e eu, autor. E ele tem sido bem sucedido. Mais de 50 mil visitas. Então penso
que nenhuma das partes tenha sentido solidão. E nem
falta de paixão, pelo menos do bardo que vos fala. Poeta que
não se cala
e segue atento a todo movimento, desde essa esfera azul que gira
incessantemente e é nossa casa, até o
sublime/profano das assinaturas humanas.
Desde o início a proposta foi
conversar com o leitor, na medida do que é possível num
blog. E ele tem mantido a proposta. Não sei se
nas linhas e entrelinhas, nos textos e subtextos é possível
perceber o prazer que me dá postar. Podem apostar, ele
é grande.
Parto da premissa da troca entre pessoas, não importa
se autoras ou “só” leitoras,
que têm em comum
comigo o gosto pela poesia.
Nunca quis que o blá blá blog
fosse um mero receptáculo dos meus poemas e venho
exercitando uma prosa que aborda variados aspectos dos fazeres poéticos e
também temas
relacionados com a vida, o tempo, os mistérios, as
paixões
humanas.
Não é um diário, mas
pensando bem é meu diário de
bordo. São até agora 234
posts, mas minha sensação é muito
mais de qualidade que de quantidade. É meu
confessionário, meu pensar em voz alta e uma racionalização das
minhas emoções. Quem sabe também “emocionalizações” da minha
razão.
Agradeço de coração aos que
embarcaram e seguem embarcando nessas minhas viagens e asseguro que há outros
caminhos ainda a percorrer.
sábado, 31 de dezembro de 2016
Os menores sonetos do mundo
Faz algum tempo, postei minha trilogia de sonetos feitos com
palavras monossílabas, que inicialmente não passava da pretensão de ser apenas
um. Alguns leitores comentaram que, por eles, eu não pararia na trilogia, mas
nunca cogitei de ir além. Mas sabe como é, a gente já sente a coceira da
inquietação, um vício. E se aí ainda somos instigados, as Musas da Poesia que
nos rondam se alvoroçam.
Consequência: a trilogia virou tetralogia. Mas eu não queria
mais do mesmo, não teria muita graça e quis dessa vez não um soneto monossilábico
“normal” como o soneto e os dois sonetilhos que compunham a trilogia, mas um
com só duas sílabas métricas.
Como em certos casos menos é mais, isso se aplica também aos
fazeres e suas artesanias e versos de apenas duas sílabas métricas, nem por
isso são mais fáceis. Então nasceu um soneto “monodissílabo”. Esse pronto e o
rato rói a mente... : quem faz um com duas sílabas, faz um com uma. Um soneto, portanto, com os 14 versos que um
soneto tem que ter, mas com apenas 14 palavras. E todas monossílabas. Quem sabe não é o menor soneto
do mundo? Quem
faz uma tetralogia, faz uma pentalogia...
E eis então aqui os novos protagonistas não “oscarizáveis”,
dois sonetrips, com visual de sonetripas.
sábado, 17 de dezembro de 2016
Palavreando
Palavra, se a gente lavra, germina, vira verso, vira frase, romance, conto, repente, cordel, discurso, declaração de amor ou indignação, contação de história, relato da memória, letra de canção!
Palavra escrita, falada, cantada. Palavra só gesticulada! E o silêncio entre elas, que as acentua, feito alma que vai ficando nua a cada palavra que se insinua, que compactua, palavra minha, palavra tua, palavra nossa num coro, num choro ou num riso coletivo, coisa de ser vivo e pulsante e que por isso é falante da palavra que é luz na escuridão do inaudito, do não dito ou do grito preso na garganta da emoção que é tanta que entala, até que a palavra vem resgatá-la.
Palavra, diz-se que uma imagem vale por mil delas, mas mesmo uma só palavra, larva singela, pode redimir, ser redemoinho, transformar água em vinho, ser solar, tocar, co-mover, tirar pra dançar.
Palavrador
O lavrador da palavra
com lírica pá lavra
em lava semeia
enlevos, embates
e dança e se encanta
de ver germinar
da incessante lavoura
palavra tanta
regada a lágrima
saliva e suor
o inaudito
o melhor
o mais bonito
que jamais logrou
ou pelo menos
a pulmões plenos
e versos-setas
gritar pepitas
montar tornados
andar em brasas
adormecer exausto
no regaço da amada
E então outra vez
lavrar o solo da imaginação
e da memória
A pena e a pá lavrando
cavando no lado escuro
Passado presente e futuro
O som
A fúria
Quem sabe a luz
e o lusco-fusco do amor
sábado, 10 de dezembro de 2016
Cochichos poéticos
Uma das maneiras de se desenvolver um texto poético é a associação de ideias. Ia dizer livre associação, mas isso me remete a algo randômico e não sou tão anárquico como sujeito nem como poeta a ponto de gostar quando colocam dezenas de papeizinhos com palavras dentro de um guarda-chuva fechado e em seguida o abrem e do jeito que os papeis pousarem no chão, está feito um poema. Faz sentido enquanto provocação que mexe com o já estabelecido e só.
Poeticamente falando, associações de ideias se dão pelas afinidades sonoras e pelos significados das palavras, daí elas não serem plenamente livres. O telefone-sem-fio da brincadeira infanto-juvenil se sofistica na mesma medida do amadurecimento de quem brinca (a sério ou não) de poetar.
Na prosa - mais na ficcional - as associações de ideias se fazem presentes, mas por se tratar de linguagem extensiva, é na poesia, linguagem eminentemente econômica, movendo-se num território mais exíguo, onde a escassez do significante busca produzir a abundância do significado (e nisso reside boa parte do fascínio exercido pela poyesis) que as associações de ideias ganham sua face mais extrema e visível para o leitor.
O enfoque nas associações de ideias não significa o elogio à forma pela forma. Um texto poético assim pode, mesmo quando de maneira subjacente, em segundo plano, sutil, ter o(s) significado(s) como passageiro(s) desse significante-veículo.
sábado, 3 de dezembro de 2016
Especulando com fusões
A prosa incorporando o poético, como (mal
comparando, é claro) em Guimarães Rosa; a poesia tendo como suporte formal o
prosesco, lapidarmente presente em Manoel de Barros; fusão de duas linguagens,
sem predomínio, enfim, onde, quando e porque demarcar territorialidades e
fronteiras? Rótulos contribuem, reduzem, confundem? Prosa poética? Poesia
prosesca? Simplesmente texto poético?
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