Quase não se escreve mais cartas. Daquelas a caneta no
papel. Das que levam selo no envelope. Um
email ou mensagem de texto no celular podem até ter o mesmo teor essencial, mas
uma carta é uma carta. A caixa de mensagens não virtual, aquela de madeira ou
metal, com fechadura e que a gente abre não com o clique de um mouse, mas com a
ponta dos dedos em busca de papéis palpáveis, guarda surpresas e expectativas. E
não te inunda com spam e correntes e piadas.
Cartas são mais demoradas, já que manuscritas. E também
demoram mais a chegar. Mas até essa aparente desvantagem pode se constituir
numa vantagem; o suspense. E a ânsia da espera. Quando eu era bem jovem, minha
namorada se mudou pra uma cidade bem distante e como não existia ainda a
Internet, trocávamos longas e frequentes cartas de amor, intensas, nas quais
até enviávamos pequenos objetos pessoais nossos, muito simbólicos do que
queríamos expressar, inclusive presentificando nosso sentimento e presença
ausente.
Me vem também a imagem romântica das mensagens em garrafas
jogadas no mar. Isso me fascinava na adolescência e eu sonhava um dia me
deparar com uma dessas numa praia. Soube que há pouco tempo uma foi encontrada,
40 anos depois de lançada e foi respondida!
Assim como o email é a carta virtual, navegar, hoje, não
necessita de carta náutica, radar, ou pelo menos se guiar pela posição das
estrelas. Basta um pc , note ou celular e um provedor de acesso. Mas como a
amada das cartas estava em Brasília, eu navegava até ela a seco, sobre rodas,
em estrada asfaltada.
Nada tenho contra a modernidade da cibernética e tampouco
sou um saudosista que se refugia no passado. Falo apenas do humano e do que é
atemporal e não se molda pelo tempo. E ilustro isso com Fernando Pessoa, um
criador tão genial quanto febril de poemas e cartas. Ele escreveu um chamado
Toda carta de amor é ridícula. Carta náutica foi meu poema inspirado nesse de
Pessoa.
















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