Importante

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quinta-feira, 10 de abril de 2014

Imper-feições


Uma prosa poética à guiza de parábola enfocando a incessante busca humana pela perfeição que sempre esbarra nessa impossibilidade. Dessa vez, o "culpado" não é, como de hábito, o homem e suas falibilidades e sim o poema, arredio a nascer e vir à luz do mundo e que desiste de se oferecer em sua plenitude a quem desejava ser veículo, propagador da sua beleza e significância. 


Como diz Gilberto Gil, numa de suas canções, "A perfeição é uma meta defendida pelo goleiro". Perfeição é o rabo que o cachorro impotentemente, rodopiando, insiste em morder, sem conseguir. Este é o nosso(e do cão)fado.


quinta-feira, 20 de março de 2014

Versos que são sentenças


Um dia desses, numa conversa com uma amiga e excelente poeta, ela compartilhou comigo uma coisa que subitamente começou a incomodá-la ao exercitar sua escrita e eu prontamente concordei. Falo da chamada poesia adjetiva. Minha amiga começou a se dar conta de que andava usando muitos adjetivos em seus poemas.

Substantivos são os nomes das coisas concretas e abstratas. Substantivo descreve. Verbo dá conta do agir, do fazer, pelos verbos se traduz o que acontece. E tirando as partículas que alinhavam o texto, pronomes, artigos, conjunções, advérbios, etc, restam os adjetivos. Adjetivo qualifica, categoriza. E qualificação é julgamento.

A melhor poesia raramente se constitui essencialmente de adjetivos. Um poema recheado de adjetivos, que se excede no juízo de valores, se reveste de um caráter prescritivo. E, cá pra nós, de prescrições já nos bastam pai e mãe, médico e pastor.

Avaliar, qualificar, comparar, propagar valores, faz parte da nossa natureza, mas nem por isso, penso eu, devemos dar livre vazão à volúpia de julgar e com isso incorrer no erro fundamental de discriminar e até “eugenizar”, de categorizar castas, dar notas de excelência e inépcia, quando na verdade somos todos diferentes e singulares, mas iguais em nossa contraditória humanidade.

Proponho um exercício aos poetas e aficcionados da poesia, que eu mesmo já fiz e voltarei agora a fazer: releiam seus poemas e de outros poetas também, conhecidos e consagrados ou não. E depois digam a si mesmos se dentre os seus eleitos, seus favoritos, predominam os poemas adjetivos ou os substantivos.

Depois vou querer saber o que vocês constataram. Digo isso sem pretender prescrever.

Pra fechar, quero compartilhar com vocês uma ideia radical que me ocorreu e que resultou num poema totalmente desprovido de adjetivos e até de substantivos, feito inteiramente com verbos, que descrevem ação, pensamento e sentimento, fugindo do julgar e apenas no subtexto, de forma indireta, convidando o leitor a tirar conclusões.




quinta-feira, 13 de março de 2014

Solunar


Despertei solar adormeci lunar. Antes incisivo depois receptivo. Lança de Marte cálice de Vênus. Vermelho quase enfarte e então azuis amenos. No lusco-fusco do twilight me busco. Amanhece e eu em ti brusco. Meuteu yang no teumeu yin. Colhi os frutos dourados do sol e com sustenido e bemol fiz do sumo uma canção pra luz que não lhe faz jus e então o sol foi dormir na sua cama de faquir com pregos de cometas. Restou-me o negrume do céu e o perfume do mar onde eu fui esperar a mensagem na garrafa sem tarrafa pra jogar e ela veio em forma de luar de ouro e prata e um mouro um pirata eu fui de andar naquela prancha de luz líquida e mergulhar bem na lua crua a me dizer sou tua, vem...
Adormeci lunar amanheci solar.





quinta-feira, 6 de março de 2014

Leve o leve


O dardo na rota do alvo voa leve. Os caminhos com ou sem espinhos se percorre feito os córregos fluentes contentes ao contornar rochas e saltar barragens. Bagagem não é fardo. Discurso não é pros bardos. Bambu não quebra no vento. Livre e leve é o pensamento. Leve-o consigo em todo momento. Consigo ouvir o ar cantar. Basta subir um andar. Parodiar um refrão. Batucar com a pulsação. Perder o mapa e se achar. Basta soltar o riso. Basta de tanto juízo. Basta. Que a vida é vasta.




quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Tempos


Quando nos atrasamos ou temos a sensação de que o tempo corre demais, estamos, na verdade, diante da dicotomia do tempo cronológico versus tempo paradigmático.

Somos vítimas da ditadura e opressão de  Cronos, o deus do tempo, com seus relógios, datas, prazos e atrasos, horas, minutos. Cronos e nossos espelhos que nos negam tônus... 

Mas uma parte dos nossos melhores instintos ainda se rebela: “Esse ano está passando tão rápido!” ou: “Meu amor, essa tortura da distância e da espera faz o tempo se arrastar como uma lesma subindo uma ladeira.” A alma e seus sentimentos percebem assim e até o corpo somatiza: chora, taquicarde, produz anchor pectoris.

A verdade é que o Homem, mesmo o primitivo tetravô do Homo Sapiens nasceu pra ter prazer, no seu significado mais amplo e viver o presente, no seu significado mais exíguo, ou seja, o agora! Um indivíduo só se sente totalmente vivo e inteiro se ele está e se percebe imerso e presente no agora e aqui. Qualquer movimento em direção ao passado, que agora é só lembrança, ou ao futuro, que neste momento não passa de especulação, são só fuga e dispersão da única coisa que é real: o presente. E todos gostamos de ganhá-lo, tanto o subjetivo quanto o objetivo, o que vem embrulhado em papel bonito e fita com laço.
                                                               
Claro que não estou fazendo nenhuma carga contra nossas heranças naturais da cultura e sabedoria ancestral, afinal, somos produto de tudo o que veio antes de nós. Tampouco contra os planejadores do futuro que promovem nossos mais auspiciosos progressos. Mas se trata muito mais do nosso estado de espírito. Passadismo é saudade do já ido e futurismo é matéria de visionários. Nosso agorismo é legítimo e condizente não com o tempo “cronorrelógico”, mas sim com o paradigmático interno que cada um de nós vive e sente.





Por entre os dedos


Estar no presente
é seguir em frente
que o instante agora
nunca se demora
e já é o antes
logo no outro instante

Quando mordo a isca
do astuto Crono
que meu sono embala
um olho arregala
mas o outro pisca
E o momento escorre
flui por entre os dedos
Rosto de odalisca
que não tem mais véu
a mentir segredos
truques de aluguel
que envelhecem cedo

Estar no depois
Carro em frente aos bois
é nenhum lugar
O ar pra morder
Colchão de faquir
Fugir do prazer



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Parto do parto


Meu filho, Gabriel, nasceu em casa. E era meu aniversário! 
Esse evento, momento memorável pra mim, descrevi inúmeras vezes e em detalhes, pra famíla, amigos, até gente desconhecida em papos casuais de fila de banco.

História que até hoje não me canso de recontar. Prazer sempre renovado de reviver não só na lembrança, mas também verbalizando, emprestando som à forte emoção do acontecimento.

Mas, embora já tivesse cogitado disso, nunca cheguei a “pôr no papel”, verter essa experiência bela e singular em versos. Talvez tenha sido até melhor assim, porque, transcorridos 22 anos, certamente o pai-poeta que vos fala está mais amadurecido de vida e de escrita e, agora,talvez esteja mais, digamos, apto (não, revisor, não é abreviatura indevida de apartamento) a narrar aquela pequena e mágica saga da vinda ao mundo do meu amado rebento.

Mesmo no direito de praticar as chamadas licenças poéticas, asseguro a vocês que imprimi o máximo de realismo à narrativa, ou seja, definitiva e literalmente, tudo que está contido nos versos de fato aconteceu, não são mentiras de pescador (que nem sou) e tampouco exageros delirantes do poeta que sou.


Quem conta um acontecido, revive-o na mente e na emoção. Interessante notar que, ao atualizar o fato  com a feitura do poema, a emoção voltou, intacta e com vigor e, creio, isso passou claramente pros versos. E mesmo o teor quase que documental do poema não lhe roubou o lirismo que o evento, pra  mim tão significativo, pedia.



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

De prima

Me perguntaram se ainda existe o amor à primeira vista. Titubeei um pouco antes de responder, porque uma parte de mim quis responder que sim, provavelmente instigado pelo meu hemisfério cerebral dionisíaco e a outra parte, mais apolínea, quis que eu dissesse que não existe. Como não sou dos que nessas horas respondem “sim...e não”, respondi que sim. Porque existe a ilusão disso. O que existe é o que de fato existe e não o que é “real”, porque até o real tem diferentes entendimentos, percepções, interpretações, versões.


Sabemos que amor à primeira vista é ilusão porque é encantamento, é agudo, é impactante e por isso mesmo quase sempre tem efeitos passageiros. Mas esse impacto só existe por encontrar em nós o terreno fértil pra isso, então é fenômeno que não se dá “do lado de fora”, não é como vento ou raio ou chama de fogueira, que está fora e nossos olhos refletem, nossos pelos esvoaçam, é encaixe em padrão que carregamos introjetado dos “quem” que nos despertam e disparam reações químicas no cérebro e, em consequência também no nosso corpo. Então os fatos nos mostram a ilusão de longo prazo que isso é. Nosso objeto de desejo pode estar – e está – do lado de fora da gente, mas no fundo nos enamoramos mais da ideia do que do objeto em si, essa ideia do encaixe, de mão e luva, o número certo que nos veste e calça. Somos Narciso se enamorando de seu reflexo no espelho d’água de um lago, sem saber que era ele mesmo a fonte do seu encantamento.

Existe também a chamada forte simpatia e essa costuma ser menos solitária, por ser mais comumente recíproca e não unilateral como o amor á primeira vista. No Rio existe um bloco de carnaval famoso chamado Simpatia é quase amor...

Mas mesmo a simpatia vem com uma relativa carga de subjetiva idealização, não tão intensa e dramática como o amor. E então, o que nomeamos como simpatia, na prática se deixa contaminar por projeções e idealizações nossas. Você pensa que identifica naquele teu "igual" uma espécie de híbrido de espelho teu e completude tua do que você não tem, mas aspira a ter.

Mas é uma ilusão danada de boa de se viver, infinita enquantro dura, macia enquanto não endurece, fruta que se arranca do pé e não a que se espera cair de madura pra saborear.