Importante

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quinta-feira, 12 de junho de 2014

Prosapoemando ou poemaprosando



Tem poesia que é prosesca, intencionalmente ou não. E tem prosa que é poética. Guimarães Rosa, com sua prosa narrativa singularíssima foi profusamente poético em romances e contos. Manoel de Barros cria o tempo inteiro montado no dorso nu da poesia, mas, do ponto de vista da forma, produz textos que deixam todos sem ter como rotular e definir onde começa a poesia e termina a prosa e vice-versa. O que é fascinante.

Mas a coisa não fica nisso. Muita poesia que no fundo é prosa involuntária, ilude a visão do leitor do texto escrito, por seu formato de poema, onde “versos” muito mais frases, são dispostos verticalmente, literal e literariamente empilhados de modo que se parecem com poemas. Esses textos, quando ditos de viva voz e assim, apenas ouvidos, tornam mais difícil estabelecer essa distinção.

Por uma simples questão de nomenclatura, chamamos de prosa poética tanto a prosa com laivos poéticos, quanto o poema que flerta com a prosa, na medida em que guarda características da poesia, como as rimas e a rítmica, ao mesmo tempo em que se funde com uma forma de narrar mais vertiginosa, para quem lê em silêncio e também para quando ouvida. Então a prosa poética resume num só termo o que poderia ser chamado também de poesia prosaica. Mas isso não soaria bem.

Os textos de hoje se situam mais no segundo caso: da poesia tomando emprestado o modo “falado” da prosa e que se aproxima do rap,  sem no entanto sê-lo ou imitá-lo.




                                                                                 

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Intreloquidades



Já há algum tempo eu vinha querendo compartilhar com vocês como nasceu a ideia de um poema, como ele se desenvolveu e ficou pronto. E tomei como amostra esse poema estranho e louco. A intenção nele é de intrigar, deixar o leitor na dúvida se está diante de palavras reais que ele desconhece - e nesse caso em doses maciças – como se o autor as tivesse pinçado de um dicionário, ou se tudo não passa de invencionice brincalhona. E é esta segunda hipótese a verdadeira. Parafraseando Manoel de Barros, só 10 por cento é mentira, o resto eu inventei.


Antes já havia escrito pelo menos dois textos com neologismos, na sua maioria resultantes de palavras existentes aglutinadas, como ambiguirvir, fusão de: ambíguo ir e vir. Esses dois poemas, um dos quais, Aromatizes, já postei aqui, têm significado e sentido, enquanto que Simplesmente, simplesmente não significa nada e nem faz nenhum sentido.



Alguns devem estar se perguntando: de que serve um poema que não tem significado? No caso específico deste poema, foi um exercício de criação de palavras e a proposta  de algo lúdico e que desconcerte, que cause um estranhamento.



O primeiro passo foi inventar palavras e com elas criar um micro glossário. Tive o “cuidado” de inventar palavras que soassem como as três formas básicas num texto: verbos, substantivos e adjetivos. Assim, bucrinejar soa como verbo, que proporciona ação e gronte soa como substantivo, porque um texto precisa de coisas e com palavras que tanto podem soar como substantivos quanto adjetivos, que são as palavras que qualificam, fiz essa diferenciação, jogando com o contexto de cada verso.



Então fui montando os versos com esses neologismos junto com preposições, advérbios, artigos, conjunções e pronomes, de modo a sintaticamente simular sentido. E ao longo dessa construção, baseada no glossário, foram também surgindo outras palavras onde vi necessidade de rimar, pra com isso, pela sonoridade, reforçar a sensação no leitor de que tudo, por mais estranho que parecesse, fosse real.



O poema, é claro, não serve pra nada além de ter sido um exercício divertido pra mim, mas penso também que pode ser usado pra levantar uma questão: a poesia tem uma ou diversas funções? Não me refiro à diversidade de temas ou de formas e sim ao papel ou papeis dela. Tem de ser sempre séria? Tem de expressar sempre emoções profundas e com isso contagiar o leitor com essa mesma emoção? Precisa sempre ser bela?



A propósito, vale conferir esse pequeno vídeo onde o genial Leminski diz com muita propriedade o que pensa sobre a função (ou disfunção) da poesia: 


http://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=T-iCzSsOZy4

Bem, pensem sobre isso, mas sem excessivas tergiversações (essa palavra existe, haha), antes que as intreloquidades fiquem furbas.


                                                                                 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Fora dos trilhos do trempo


O tempo, esse tal que nos esmaga, é um trem lotado que para nas estações. Os passageiros quase nunca desembarcam, não se rebelam contra esse veículo que os leva sabe lá pra onde e sem que eles tenham solicitado esse transportar.

O atrevido que ousa desembarcar logo descobre que só assim vai poder ver a vida mais de perto, não só ver, como tocar, cheirar, sentir, enfim. Sentidos e sentimentos percorrendo todos os sentidos e enfim encontrando os muitos sentidos que a vida tem. Poder andar com as próprias pernas e parar quando quiser.

De dentro do trem a vida passa como videoclipe veloz e fragmentado, como vida lá fora e do outro. Dentro do trem a vida é igual a sempre, previsível e claustrofóbica e com o ar viciado sem frescor, sem se renovar. Nós, passageiros-prisioneiros enraizamos a ideia de que viver, inexoravelmente é viajar nesse trem, ser tangido por ele até a parada final no fim da linha da vida que a nossa mão indica e que não tem formato de trilhos e dormentes.

E nosso ousado atrevido que desembarcou pra ver e viver a vida lá fora (e em última instância, nessa interação, dentro dele também), ao descer do trem, abdicou da vida que aparentemente só se sustenta a bordo dessa máquina cruel?  

Não. Ele apenas escolheu seu tempo interno, desafiou a ditadura opressiva de Crono, pendurou sua rede entre dois pilares do Tempo, como um Dorival Caymmi cantando a aldirblanquiana Resposta ao tempo e se permitiu viver sem o tiquetaque ruidoso do relógio a lhe vigiar.

E depois, numa estação qualquer, embarcou num outro trem. Porque não existe um trem só e um só destino e sentido.



Cronoilógico


No mundo das coisas
(o corpo da gente
também é uma delas)
as coisas se medem
pelo quanto distam
e pelo tamanho

Pra se aproximarem
Serem percorridas
isso é trabalhoso
Requer movimento
Então a medida
é espaço, distância

Mas o homem criou
um certo artifício
pra medir as coisas
seus deslocamentos
Medir progressões
E o chamou de Tempo
E fê-lo Senhor
da vida e das coisas
que mexe os pauzinhos
das marionetes
que todos nós somos

O cosmo se move
sem esses cordéis
Mas qual a medida
pra se compreender
vasta imensidão
e lento viajar?
Os tais anos-luz...

A vida é um caminho
No entanto teimamos
em só percebê-la
ao crivo de Crono
Um deus invejoso
que nos ludibria
e nos escraviza
aos nossos relógios
prazos e atrasos
Vida é atemporal
Tempo? Que se dane



quinta-feira, 24 de abril de 2014

Hable con ella (pero también escuche)


Nessa vida imediata e midiática pouco se medita. 

Todos querem ser ouvidos, mas nem todos estão dispostos a escutar.

No bar ruidoso nos socializamos.

Bach, (aquele idoso?) nos faz(ia) ouvi-lo em silêncio.

Raros são os silêncios de ouro. Muito mais os de chumbo, cor e peso do descaso, da impenetrável couraça do si mesmo.

Dois aos gritos superpostos como linhas telefônicas cruzadas.

Dois silêncios não compartilhados.

Cada monólogo é espada sem fio que esgrima o monólogo alheio.

Como pano de fundo a TV exibe um videoclipe com imagens fragmentadas que ninguém vê.

Respiração curta. Ejaculação precoce. Mergulho no raso. Msgs. abrev. . Não se tem mais tempo para ser. 



quinta-feira, 10 de abril de 2014

Imper-feições


Uma prosa poética à guiza de parábola enfocando a incessante busca humana pela perfeição que sempre esbarra nessa impossibilidade. Dessa vez, o "culpado" não é, como de hábito, o homem e suas falibilidades e sim o poema, arredio a nascer e vir à luz do mundo e que desiste de se oferecer em sua plenitude a quem desejava ser veículo, propagador da sua beleza e significância. 


Como diz Gilberto Gil, numa de suas canções, "A perfeição é uma meta defendida pelo goleiro". Perfeição é o rabo que o cachorro impotentemente, rodopiando, insiste em morder, sem conseguir. Este é o nosso(e do cão)fado.


quinta-feira, 20 de março de 2014

Versos que são sentenças


Um dia desses, numa conversa com uma amiga e excelente poeta, ela compartilhou comigo uma coisa que subitamente começou a incomodá-la ao exercitar sua escrita e eu prontamente concordei. Falo da chamada poesia adjetiva. Minha amiga começou a se dar conta de que andava usando muitos adjetivos em seus poemas.

Substantivos são os nomes das coisas concretas e abstratas. Substantivo descreve. Verbo dá conta do agir, do fazer, pelos verbos se traduz o que acontece. E tirando as partículas que alinhavam o texto, pronomes, artigos, conjunções, advérbios, etc, restam os adjetivos. Adjetivo qualifica, categoriza. E qualificação é julgamento.

A melhor poesia raramente se constitui essencialmente de adjetivos. Um poema recheado de adjetivos, que se excede no juízo de valores, se reveste de um caráter prescritivo. E, cá pra nós, de prescrições já nos bastam pai e mãe, médico e pastor.

Avaliar, qualificar, comparar, propagar valores, faz parte da nossa natureza, mas nem por isso, penso eu, devemos dar livre vazão à volúpia de julgar e com isso incorrer no erro fundamental de discriminar e até “eugenizar”, de categorizar castas, dar notas de excelência e inépcia, quando na verdade somos todos diferentes e singulares, mas iguais em nossa contraditória humanidade.

Proponho um exercício aos poetas e aficcionados da poesia, que eu mesmo já fiz e voltarei agora a fazer: releiam seus poemas e de outros poetas também, conhecidos e consagrados ou não. E depois digam a si mesmos se dentre os seus eleitos, seus favoritos, predominam os poemas adjetivos ou os substantivos.

Depois vou querer saber o que vocês constataram. Digo isso sem pretender prescrever.

Pra fechar, quero compartilhar com vocês uma ideia radical que me ocorreu e que resultou num poema totalmente desprovido de adjetivos e até de substantivos, feito inteiramente com verbos, que descrevem ação, pensamento e sentimento, fugindo do julgar e apenas no subtexto, de forma indireta, convidando o leitor a tirar conclusões.




quinta-feira, 13 de março de 2014

Solunar


Despertei solar adormeci lunar. Antes incisivo depois receptivo. Lança de Marte cálice de Vênus. Vermelho quase enfarte e então azuis amenos. No lusco-fusco do twilight me busco. Amanhece e eu em ti brusco. Meuteu yang no teumeu yin. Colhi os frutos dourados do sol e com sustenido e bemol fiz do sumo uma canção pra luz que não lhe faz jus e então o sol foi dormir na sua cama de faquir com pregos de cometas. Restou-me o negrume do céu e o perfume do mar onde eu fui esperar a mensagem na garrafa sem tarrafa pra jogar e ela veio em forma de luar de ouro e prata e um mouro um pirata eu fui de andar naquela prancha de luz líquida e mergulhar bem na lua crua a me dizer sou tua, vem...
Adormeci lunar amanheci solar.