Importante

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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

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Este post comemora dois anos de bla bla blog. Tem sido prazeroso fazê-lo, muita gente bacana o lê e 
comenta, até sugere temas. 172 postagens e 22000 visualizações. Confesso que quando o comecei, nem podia imaginar que fosse chegar nem perto disso. O bla bla tem levantado questões, creio que em sua maioria pertinentes, em geral no âmbito do poético, com uma ou outra escapada rumo ao comportamento e os costumes, assuntos também caros a mim. Enquanto for assim, prazeroso e com essa troca com o leitor, vou seguir com o barco, postando e apostando. E sem pompa nem circunstância, fecho o post de aniversário com uma prosa poética em homenagem a essa forma de expressão que nos une e permeia: a poesia.



quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

As palavras e seus dons




AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
que chega a fingir que é dor                        
a dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
na dor lida sentem bem,
não as duas que ele teve,
mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
gira, a entreter a razão,
esse comboio de corda
que se chama coração.
                                        Fernando Pessoa


As palavras têm dons. De esclarecer, informar, encantar, ensinar, iludir, confundir, incomodar, consolar, comover, demover, inspirar, agredir, acarinhar. Tais e tamanhos efeitos têm como emissor e receptor o homem. Então a palavra é só mediadora, ponte, veículo. E quem as manuseia é que na verdade tem os dons, quer do êxito na mensagem ou da desastrosa inabilidade que as faz fracassar. E os receptores, seus coadjuvantes, a capacidade ou incapacidade de entender e interpretar de forma correta.

Fernando Pessoa, um poeta hábil e inspirado como pouquíssimos, volta e meia é fonte de erros de interpretação da sua sutil e elaborada escrita. Com este poema, Autopsicografia, ele, na verdade não diz que os poetas mentem, que fingem. Pessoa, na verdade diz que o delírio do poeta o faz não distinguir bem o real da fantasia. O que ele quis dizer é que mesmo quando o poeta narra algo real e no qual ele acredita, pode soar como fantasia, pela aura que os poetas têm.  É um poema que costuma ser entendido ao pé da letra e então fica uma impressão meio generalizada de que ele “denuncia” que os poetas são mentirosos.

Outro equívoco que Pessoa gera é em outro poema famoso dele: Navegar é preciso. Ele diz:
Navegar é preciso, viver não é preciso
A princípio parece querer dizer que viver não é necessário, mas o sentido de preciso aqui é de exatidão; Navegar é exato, viver não é exato.

A riqueza das palavras pode dotar de dois gumes a lâmina semântica e o corte raso ou profundo que penetra a carne do entendimento.

Vide bula


Palavra é ritmo e dança
Brinquedo de desmontar
Palavra é de som e ar
Aguda ponta de lança

Contida, exaltada. chula
Chicote ou  doce canção
Carícia ou demolição
Na dúvida vide bula

É mapa, é lei, estrutura
É luz numa mina escura
Ou pura contradição

Mentira mais verdadeira
Verdade mais traiçoeira
Não diz sim e sim diz não


  

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Regra não é receita


A poesia é um conceito, uma vertente e tem formas e regras, que são seguidas, recriadas, transformadas, rompe-se com elas, transgride-se. O que exorbita disso, e num viés que não agrega valor, são as receitas. Poesia e culinária são alquimias, mas uma sacia o estômago e as papilas gustativas, enquanto a outra satisfaz a alma e os ouvidos.

Seguir receitas em poesia é flertar com o pastiche, o previsível, a imitação. É permitir que o anêmico e espúrio que traz a convenção predomine sobre a criação e suas possibilidades de inovação, ineditismo e liberdade.


O haicai, forma minimalista de poesia nascida no Japão, ganhou o mundo no século XX, globalizou-se. Ainda é feito na terra do sol nascente pelos seguidores de sua secular tradição. No restante do mundo, ganhou nuances de cada cultura, clima, geografia, idioma. Poeta ocidental que faz haikai como quem segue receita de sushiman, sem querer vira impostor. Não nascemos no Japão, não falamos japonês e nossa contribuição criativa a essa forma tão peculiar e concisa de poesia é fazer haikai ao nosso modo, seguindo, é claro, determinadas regras que caracterizam a forma.

Sushi pode ser feito aqui, igual. Mas poesia são outros quinhentos hashis e nirás e em vez de imitada, melhor que seja recriada. Regras são importantes e são suportes da criação. Mas regra não é receita. E um prato bom, culinário ou poético, acontece quando a gente acrescenta nosso toque pessoal.



quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O neo visita um lugar mais perto do céu


Tenho uma relação afetiva com um bairro singular do Rio de janeiro chamado Santa Teresa. Pra quem não sabe, é o bairro alto encravado entre o Centro e a Zona Sul, o único da cidade que ainda tem bonde, que passa por sobre os famosos Arcos da Lapa.

É um bairro bucólico onde moram inúmeros artistas. Muitas ladeiras, casario antigo, alguns mirantes pra linda vista da Baía da Guanabara. Raiz da minha família materna, frequento-o desde criança. Seu clima poético me fez querer poetá-lo. Mas não queria apenas fazer mais um poema pra “Santa”, como é chamado. Suponho que ele já tenha sido muso de muitos textos.

Então decidi recorrer aos neologismos, às aglutinações de palavras, pra tentar sintonizar meu poema com a singularidade do lugar. E assim descrevi os sons e a musicalidade da chuva descendo mansamente pelas ladeiras do bairro e o romantismo que isso inspira.


Bairromance


Uma chuviscosa desce
e escorregateia
lentátil
pelas ladeiras
de um bairromântico
que a recebem-vinda  
O ruidoce estival
invade sensíveis ouvidros  
como sonoros melodiamantes
Fundo musicaloroso
pro artistalentoso
que ouvê
pela janelabiríntica
a chuvida
hidratântrica
que lavalma



                        

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Poema nu


Tem coisas que se pode fazer de forma solitária, em parceria ou coletivamente. Desde sexo até escrever poesia, passando por fazer exercícios, conversar (há quem fale sozinho, diante do espelho ou não), dançar e algumas outras atividades que não me ocorrem agora...ah, me ocorreu uma pelo menos:  pensar, que quase sempre é solitário, a não ser quando pensamos em voz alta e um interlocutor interage com isso, ou um estranho se intromete. E pode ser coletivo, se participamos de algum tipo de brainstorming.

Sou escritor e corredor e quase sempre escrevo e corro sozinho. Escrever – e não falo algo inédito – é solitário por mais de uma razão. A mais evidente delas é que o escritor precisa de silêncio, concentração e conforto. Claro que tem exceções a essa regra. Ferreira Gullar, por exemplo, gosta de criar nas calçadas, caminhando, entre as pessoas e pensando como elas nem desconfiam que ali está nascendo, invisível e inaudível, um poema.

Não que eu busque isso, mas comigo já aconteceu e não raras vezes. Já escrevi, mentalmente ou com caneta e papel, em filas de banco, no metrô e em salas de espera de consultórios médicos. Antes o burburinho da tv ligada na Ana Maria Braga na longa espera no dentista, que deixar um poema se desvanecer na desmemória. 

E aí vem uma outra razão de escrever ser preferencialmente solitário: pudor. Um poema ainda inconcluso está como que nu e o cara do teu lado no metrô espichando o olho curioso com a tua escrevinhação te produz instintiva e imediata reação de recato e você pudicamente abdica de prosseguir na escrita e dobra o papel, num protesto sutil e mudo contra a invasão.

Claro que escrever a dois ou coletivamente é possível e até pode ser uma experiência rica, mas é um contexto diferente e pouco comum. Correr tbm pode ser assim, mas em geral é solitário também. E Epifania se originou do encontro entre o escritor solitário e o corredor idem e ambos, apertados dentro de um só, correram e poetaram isso, uma parte ainda correndo...




quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Reality show



Palavras, sentimentos, sensações, fatos, imagens, desencadeiam poemas. Estou vivenciando agora um sentimento repleto de palavras que parecem um video de manifestantes numa passeata, do qual suprimiram (quiçá censuraram) o som. Sentimento de incomunicabilidade que trespassa a alma do poeta (e aposto que de muitos dos seus pares). De falar, gritar até e ser mal ouvido pela indiferença de ouvidos moucos e individualistas.


A solitária incomunicabilidade do poeta…eis o tema.


Depois do Big Bang
do meu universo
junto meus cacos
que não dão três versos
(Narrando as agruras com laivos de humor, nada mau pro começo)

Escritos a sangue…não, aqui não cabe verso tão dramático, melhor…:
Só um yang
e um yin
Converso comigo
Me faço amigo de mim…(uma rima interna aqui produz uma boa sonoridade)
E no fim
desse autocarinho
por falar sozinho
me vestem camisa-de-força…(a incomunicabilidade, os ouvidos moucos da indiferença entram no texto)
E assim mal vestido
sigo pro olvido
de não ser ouvido…(o tema se desenvolve…a paronímia do olvido com ouvido tira um pouco o tom solene da queixa)
nesse fim de baile
doído e duro (ou) sem futuro
escrever no escuro
poemas em braile…(no desfecho, além de outra paronímia em baile/braile, a conclusão metafórica apontando pra inexorabilidade da solidão intrínseca de um artista ao criar.)

Ah! Falta o título. Camisa-de-força? Não. Bem, acho que um se impõe: Na solitária.

Então, ficou assim:



Na solitária

Depois do Big Bang
do meu universo
junto meus cacos
que não dão três versos
Só um yang
e um yin
Converso comigo
Me faço amigo de mim
E no fim
desse autocarinho
por falar sozinho
me vestem camisa-de-força
E assim mal vestido
sigo pro olvido
de não ser ouvido
nesse fim de baile
sem futuro
escrever no escuro
poemas em braile


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Uma palavra vale por mil imagens

O famoso provérbio chinês diz que uma imagem vale por mil palavras.


Sim, é inegável a força que uma imagem pode carregar. Por exemplo, fotógrafos como Henri Cartier-Bresson e nosso Sebastião Salgado que o digam. Mas esses nossos tempos velozes e vorazes da exacerbação e supervalorização da imagem, transformaram o provérbio chinês num clichê. Os videoclipes e comerciais de TV despejam uma sucessão vertiginosa de imagens em que a palavra, a letra da música, é menos importante que a informação visual, o primado da imagem  com seus textos só subjacentes.

Mas o que desejo dizer é o oposto. A palavra tem enorme poder. O de inverter, inclusive, o provérbio chinês.  Uma palavra bem sacada, bem colocada, pode mudar o sentido implícito que uma imagem sem texto agregado a ela carrega. A palavra tem esse dom da transformação quando associada a uma imagem.

A imagem que aparece no alto da página passa claramente uma ideia de proteção, acolhimento, segurança, serenidade. Isso é indiscutível. Mas vejam como, associada a um texto, o contexto muda o sentido e transforma a imagem em algo ameaçador, as mãos protetoras agora oprimem, ameaçam, roubam, arrancam  essa pessoa de outro.


A palavra muito pode. Nesse caso, subverte o antes estabelecido, transgride, desconstroi. Assim como em outras circunstâncias restaura, agrega, clareia. Não a subestimemos, pois. Acreditemos em que uma palavra pode valer por mil imagens, que pode carregar em si imagens que instigam, se plantam e germinam no vasto universo que é a nossa imaginação.