Importante

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sábado, 14 de janeiro de 2017

Sou neto

Sou o que chamam de sonetista, ou seja, alguém que ousa tentar escrever sonetos.


Sonetos, na forma, são poemas de 4 estrofes, dois quartetos e dois tercetos, totalizando 14 versos. Vêm da tradição literária francesa e inglesa. Shakespeare os escreveu, Pablo Neruda e Augusto dos Anjos também, entre tantos outros luminares do gênero.

Lembro-me do fascínio e do impacto estético e existencial que a leitura, ainda adolescente,  dos sonetos de Augusto dos Anjos me causou. O registro disso no meu inconsciente deve ter sido tão marcante que, mais tarde, vim a me aventurar pela escrita deles.

Sonetos são considerados, quase uma unanimidade, de feitura árdua. E não é pra menos. Os cânones que o caracterizam são precisos e rigorosos. Você tem que expressar sua ideia e emoções em exatos 14 versos, iniciados por dois quartetos e finalizados por dois tercetos. A métrica não se impõe com menos rigor. A estrutura das rimas, sua disposição ao longo do texto, até que aceita algumas variações, mas a simultaneidade disso tudo cria dificuldades para seus autores.

Manter a coerência da sua ideia, tendo de cuidar da métrica rigorosa, das rimas em seus devidos lugares, leva quem os escreve a exercitar uma espécie de jogo de armar, onde a criação e encadeamento dos versos não segue necessariamente uma linearidade. Pra ilustrar com um exemplo pessoal, certa vez comecei a escrever um soneto pelo último verso.

Sim, confirmo que sonetos são de construção árdua, mas ocorre que isso me instiga, desafia. Poucas coisas são tão prazerosas para um sonetista - se me permitem falar por todos – que contemplar um novo soneto concluído e se dar conta de que ele ficou bom. Que, a despeito das dificuldades impostas pelos rigores das regras, ele conseguiu se expressar. Chego a pensar que tais “obstáculos” não raro estimulam a criatividade e as boas ideias até mesmo pra contornar as limitações.

Às vezes, por puro espírito lúdico, mesmo quando a proposição temática é densa, me imponho ainda mais rigores, como por exemplo: me propor a escrever um soneto só com palavras monossílabas, ou proparoxítonas, ou com uma única rima em todos os versos. São pequenas  transgressões que me permito, ao mesmo tempo em que crio essas regras extras.


Sonetos são uma das mais tradicionais formas poéticas. Tem tantos apreciadores, tanto seus autores quanto leitores, que seguem firmes até hoje, com relativo volume de produção, em que pese o temor que inspira em muitos poetas.


Particularmente, gosto de escrevê-los em sua rigorosa forma clássica, mas também refrescá-los com experimentações. Meu fascínio de adolescente com o tempo se transformou num prazer difícil de descrever ao construí-los, mesmo quando me ponho a mudar palavras em busca da perfeição da sonoridade e do ritmo, mudar por vezes um verso inteiro ou até uma estrofe inteira, tal qual uma mulher sedutora e atraente que no entanto se revela difícil e exigente. 



sábado, 7 de janeiro de 2017

Quintanista

E o blá blá blog completa 5 anos. Tem casamento que não dura isso, compromisso sempromisso. Casamento aqui tem como cônjuges vocês, leitores e eu, autor. E ele tem sido bem sucedido. Mais de 50 mil visitas. Então penso que nenhuma das partes tenha sentido solidão. E nem falta de paixão, pelo menos do bardo que vos fala. Poeta que não se cala e segue atento a todo movimento, desde essa esfera azul que gira incessantemente e é nossa casa, até o sublime/profano das assinaturas humanas.


Desde o início a proposta foi conversar com o leitor, na medida do que é possível num blog. E ele tem mantido a proposta. Não sei se nas linhas e entrelinhas, nos textos e subtextos é possível perceber o prazer que me dá postar. Podem apostar, ele é grande. Parto da premissa da troca entre pessoas, não importa se autoras ou só” leitoras, que têm em comum comigo o gosto pela poesia.

Nunca quis que o blá blá blog fosse um mero receptáculo dos meus poemas e venho exercitando uma prosa que aborda variados aspectos dos fazeres poéticos e também temas relacionados com a vida, o tempo, os mistérios, as paixões humanas.

Não é um diário, mas pensando bem é meu diário de bordo. São até agora 234 posts, mas minha sensação é muito mais de qualidade que de quantidade. É meu confessionário, meu pensar em voz alta e uma racionalização das minhas emoções. Quem sabe também emocionalizações da minha razão.


Agradeço de coração aos que embarcaram e seguem embarcando nessas minhas viagens e asseguro que há outros caminhos ainda a percorrer.



sábado, 31 de dezembro de 2016

Os menores sonetos do mundo


Faz algum tempo, postei minha trilogia de sonetos feitos com palavras monossílabas, que inicialmente não passava da pretensão de ser apenas um. Alguns leitores comentaram que, por eles, eu não pararia na trilogia, mas nunca cogitei de ir além. Mas sabe como é, a gente já sente a coceira da inquietação, um vício. E se aí ainda somos instigados, as Musas da Poesia que nos rondam se alvoroçam.

Consequência: a trilogia virou tetralogia. Mas eu não queria mais do mesmo, não teria muita graça e quis dessa vez não um soneto monossilábico “normal” como o soneto e os dois sonetilhos que compunham a trilogia, mas um com só duas sílabas métricas.

Como em certos casos menos é mais, isso se aplica também aos fazeres e suas artesanias e versos de apenas duas sílabas métricas, nem por isso são mais fáceis. Então nasceu um soneto “monodissílabo”. Esse pronto e o rato rói a mente... : quem faz um com duas sílabas, faz um com uma.  Um soneto, portanto, com os 14 versos que um soneto tem que ter, mas com apenas 14 palavras. E todas monossílabas. Quem sabe não é o menor soneto do mundo?                                                                                                                                          Quem faz uma tetralogia, faz uma pentalogia...

E eis então aqui os novos protagonistas não “oscarizáveis”, dois sonetrips, com visual de sonetripas.





                                        


sábado, 17 de dezembro de 2016

Palavreando


Palavra, se a gente lavra, germina, vira verso, vira frase, romance, conto, repente, cordel, discurso, declaração de amor ou indignação, contação de história, relato da memória, letra de canção!

Palavra escrita, falada, cantada. Palavra só gesticulada! E o silêncio entre elas, que as acentua, feito alma que vai ficando nua a cada palavra que se insinua, que compactua, palavra minha, palavra tua, palavra nossa num coro, num choro ou num riso coletivo, coisa de ser vivo e pulsante e que por isso é falante da palavra que é luz na escuridão do inaudito, do não dito ou do grito preso na garganta da emoção que é tanta que entala, até que a palavra vem resgatá-la.

Palavra, diz-se que uma imagem vale por mil delas, mas mesmo uma só palavra, larva singela, pode redimir, ser redemoinho, transformar água em vinho, ser solar, tocar, co-mover, tirar pra dançar.



Palavrador

O lavrador da palavra
com lírica pá lavra
em lava semeia
enlevos, embates
e dança e se encanta
de ver germinar
da incessante lavoura
palavra tanta
regada a lágrima
saliva e suor
o inaudito
o melhor
o mais bonito
que jamais logrou
ou pelo menos
a pulmões plenos
e versos-setas
gritar pepitas
montar tornados
andar em brasas
adormecer exausto
no regaço da amada

E então outra vez
lavrar o solo da imaginação
e da memória
A pena e a pá lavrando
cavando no lado escuro
Passado presente e futuro
O som
A fúria
Quem sabe a luz
e o lusco-fusco do amor



sábado, 10 de dezembro de 2016

Cochichos poéticos


Uma das maneiras de se desenvolver um texto poético é a associação de ideias. Ia dizer livre associação, mas isso me remete a algo randômico e não sou tão anárquico como sujeito nem como poeta a ponto de gostar quando colocam dezenas de papeizinhos com palavras dentro de um guarda-chuva fechado e em seguida o abrem e do jeito que os papeis pousarem no chão, está feito um poema. Faz sentido enquanto provocação que mexe com o já estabelecido e só.


Poeticamente falando, associações de ideias se dão pelas afinidades sonoras e pelos significados das palavras, daí elas não serem plenamente livres. O telefone-sem-fio da brincadeira infanto-juvenil se sofistica na mesma medida do amadurecimento de quem brinca (a sério ou não) de poetar.



Na prosa - mais na ficcional - as associações de ideias se fazem presentes, mas por se tratar de linguagem extensiva, é na poesia, linguagem eminentemente econômica, movendo-se num território mais exíguo, onde a escassez do significante busca produzir a abundância do significado (e nisso reside boa parte do fascínio exercido pela poyesis) que as associações de ideias ganham sua face mais extrema e visível para o leitor.



O enfoque nas associações de ideias não significa o elogio à forma pela forma. Um texto poético assim pode, mesmo quando de maneira subjacente, em segundo plano, sutil, ter o(s) significado(s) como passageiro(s) desse significante-veículo.



                                                                                   

sábado, 3 de dezembro de 2016

Especulando com fusões


A prosa incorporando o poético, como (mal comparando, é claro) em Guimarães Rosa; a poesia tendo como suporte formal o prosesco, lapidarmente presente em Manoel de Barros; fusão de duas linguagens, sem predomínio, enfim, onde, quando e porque demarcar territorialidades e fronteiras? Rótulos contribuem, reduzem, confundem? Prosa poética? Poesia prosesca? Simplesmente texto poético?





sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Considerações "haicaicas"

"O Sentido e a essência não se encontram
em algum lugar atrás das coisas,
senão em seu interior, no íntimo de todas elas."

Hermann Hesse


O haicai é um micropoema de apenas três versos, de característica marcadamente contemplativa da Natureza, surgido no século XVI, no Japão e que vem se espalhando por todo o mundo do século XX em diante.

Ao longo da história da prática, e inclusive na atualidade, são incontáveis os mestres, monges e leigos que se dedicaram a expressar de maneira poética o pensamento zen.

Ele ensina que o universo revela-se totalmente novo a cada instante. A matéria poética do zen é este instante presente, que não se pode agarrar, no qual a linguagem ainda não interferiu. A poesia zen expressa a identidade e a unidade de sujeito e objeto a cada instante, é o dharma, a mente de Buda manifestando-se espontaneamente em cada fenômeno.

Ao sol da manhã
uma gota de orvalho
precioso diamante.

Matsuo Basho (1644-1694)


O haicai é uma das formas poéticas que mais exercito.
Muitos leitores em geral e leitores meus em particular não conhecem esta forma poética.

O haicai, como se apresenta nos dias de hoje e no Ocidente, ganhou características próprias, não enfocando, por exemplo, necessariamente só a Natureza, as coisas concretas.  Seus preceitos são mais maleáveis que o haicai original japonês.

No meu idiossincrático e sincrético ponto de vista estético, acho leniente essa maleabilidade que tolera variações métricas e temáticas, posto que, afinal, somos ocidentais, não temos escrita ideográfica, não somos descendentes de samurais e nosso exercício poético é sobre uma adaptação, uma coopção, diria até uma corruptela da forma pura. (Os autores ocidentais mais tradicionalistas preferem chamar esses haicais ocidentalizados de poetrix.)

Creio que de outro modo, seria imitação e consequentemente o resultado seria o pastiche. Uma analogia que me ocorre  - me perdoem a irreverência -  seria um monge zen tentando sambar.

Dois “haicaicos” brasileiros pra mim são referências: Millôr Fernandes, dramaturgo, cartunista, tradutor, escritor e gênio e Paulo Leminski, professor e poeta hoje mui justamente cultuado. Millôr é influência confessa minha, em tudo o que fez, pela sua perspicácia, seu humor corrosivo com as instituições, seu senso de ritmo e sonoridade (que sempre busco). Ele tem um livro de haicais que ele mesmo ilustrou e que considero precioso.

Leminski é um caso atípico de referência reversa, porque só vim a conhecer sua obra há uns poucos anos, quando eu já tinha escrito quase duzentos haicais. Sinto uma afinidade temática, estética e existencial muito forte com ele, mas, ao contrário do que várias pessoas me dizem e até paradoxalmente, não vejo significativas semelhanças entre nossos textos. No entanto, meu encantamento com o que ele produziu passou a ser inspiração pra mim.

Eu te fiz agora
Sou teu deus, poema
Ajoelha e me adora

Paulo Leminski



Pra mim, haicai é exercício de economia. Dizer o máximo com o mínimo de recursos. Poesia, assim vejo, é a linguagem da supressão e o haicai é a poesia de supressão por excelência e na sua forma mais aguda. Um haicai deve surpreender, ser um flash, comentar, refletir, cutucar o ombro do passante que olha pro chão e fazê-lo dar de cara com algo inesperado, pintar um quadro, verbalizar um insight, um aeroplano que puxa uma mensagem, um recorte de notícia de jornal, uma vinheta, uma risada, um acorde, um salto mortal.

Ilustração em nanquim de Ana Eliza Frazão