Importante

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terça-feira, 23 de agosto de 2016

Arruaças


Este post é singela homenagem à singeleza da
arte de rua e seus criadores.

São acrobatas, músicos, atores, grafiteiros, palhaços, pintores, poetas, mímicos, dançarinos, mágicos, estátuas vivas, que fazem poesia das mais variadas formas e linguagens e que sobretudo levam essa poesia e encantamento aos transeuntes em encontros casuais, não formais, sem compra antecipada de ingressos nem lugar marcado e na maioria dos casos pra espectadores que não podem pagar nem por um ingresso de cinema, que dirá de  espetáculo do Cirque de Soleil.

E esses artistas vivem da contribuição espontânea de seus espectadores, sem nada exigir, só passando o chapéu. E vão alegrando as ruas e seus passantes das esmagadoras e impessoais metrópoles do mundo, com criatividade, senso de improviso, humor, lirismo, habilidade de extrair muito de parcos recursos, metáforas vivas e vivazes do minúsculo Davi da árvore fértil que dá fruta, sombra e oxigênio contra o gigante Golias da fria rigidez e da motosserra.

Salve o Gentileza, grafitando amor e paz. Salvem os repentistas, os performers, os engolidores de fogo, os desafiadores do improvável. Salvem esses poetas a céu aberto, a despeito de intempéries, cassetetes, normas, choques de ordem e cartesianismos boçais, mas tão amados por quem tem sensibilidade e sede de beleza e diversão. Artistas de rua, artistas do mundo, guerreiros do bem, que ajudam a tornar essa vida mais humana, criativa e feliz.





 


segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A maré

Amar é de bom tom. Tão de bom tom que se tornou politicamente correto. O indivíduo que não ama alguém, não ama o próximo, mesmo que seja num hiato de tempo, mesmo que seja uma fase, um momento de indisponibilidade desse afeto, é meio mal visto. Acham e dizem que o sujeito é frio e indiferente. Colam já a etiqueta da vilania em sua testa.

Porque amar é bem visto, o amor, ornado com todos os enfeites e efeitos especiais sob os auspícios das idealizações, é tornado explícito a qualquer preço e daí vem a banalização.

Amor genuíno, sabemos, é sentimento singular e como tal, não o sentimos por tudo e todos, nem o vivenciamos todo o tempo. Nas nossas contradições humanas existe lugar também para outros sentimentos menos luminosos e nobres, ódio, despeito, egoísmo. Mas cobra-se perfeição inumana e isso leva ao flerte com a banalização.

A linguagem expressa e legitima o que se pensa e o que se quer ou não. Quem quer garantir a simpatia e aceitação do outro, abusa do verbo amar e do substantivo amor. Um bloco de carnaval carioca se chama Simpatia é quase amor. Licença poética concedida e irreverência à parte, o fato é que hoje se distribui fartamente “te amo” e “meu amor” pra tudo e todos e em todas as direções.

E assim se nivela por baixo esse sentimento, colocando no mesmo pacote o amor real e algo que ganha ares um tanto caricatos. E tome corações distribuídos como “santinhos” de cabos eleitorais de candidatos políticos. Já foi incorporado pelo chamado senso comum.


Mas o amor, o de verdade, segue sendo uma força motriz que nos coloca num lugar e estado de espírito absolutamente singulares, que as palavras e a arte em geral continuarão proocurando descrever, definir, iluminar e compreender. E nos tocar.



sábado, 13 de agosto de 2016

Limite sem limites


Diferentes formas artísticas podem criar estruturas de expressão semelhantes. O cinema ficcional segue uma estrutura narrativa básica que tem na literatura o conto e o romance como seus afins. Personagens são introduzidos, uma história é contada e se desenrola na direção de um desfecho.

A poesia não comumente usa essa estrutura narrativa. Mas nada impede que seja assim. Um poema pode contar uma história, ter uma trama e um desfecho, que pode, inclusive, ser surpreendente. A linguagem supressora da poesia, oposta à prolixidade da prosa dificulta a narração, mas lidar com essas limitações formais e conseguir contorná-las é prazeroso pra quem escreve. O Twitter nos traz um exemplo expressivo disso com os chamados microcontos, limitados aos escassos 144 caracteres dessa forma de comunicação.

Outro exemplo é o haicai, com seu limite de três versos e dezessete sílabas. Bem escrito, um micropoema assim pode contar uma história com desfecho e tudo.

Sonetos são formas poéticas limitadas a um total de quatorze versos, que se compararmos com os tais microcontos de 144 caracteres ou os haikais, de três versos, se apresenta até como um formato espaçoso para acolher uma história a ser contada. E assim o fiz, ao narrar uma história de amor de final inesperado:

A sós



A boca escancarada de marfim
sorri convidativa e provocante
Duas mãos o acariciam dominantes
Romance entre a centelha e o estopim

Seus dois pequenos pés são pés de gueixa
que deixam-se pisar sem relutância
Precisos trampolins da ressonância
Revelam seus segredos e ele deixa

O som que se produz da transfusão:
madeira no metal no corpo humano
da essência da beleza é a tradução

Termina o prelúdio, desce o pano
Depois dos mil aplausos da emoção
enfim a sós, as mãos e o seu piano



 

                      Assistam no Youtube o vídeo com animação do meu poema circular "Continuum"
http://www.youtube.com/watch?v=X0jPVdpdk7w

sábado, 6 de agosto de 2016

Lento e veloz


O tempo, outro tema recorrente.

Sou um leigo que acha que, “na verdade”, o tempo não passa de uma sensação, que precisamos nomear e descrever e então recorremos a artifícios que remetem a movimento, daí os ponteiros ou dígitos dos relógios, a lenta dança dos planetas, a areia caindo na ampulheta, enfim, como não podemos ver o tempo, abstrato que é, o representamos por coisas que se movimentam. E coisas costumam ser visíveis.

Tanto que além do tempo cronológico, o do senso comum, temos também o tempo paradigmático, subjetivo. A velocidade desse tempo interno, a percepção dele, varia conforme circunstâncias, estados de espírito, ansiedade, apetite (ou falta de) pela vida. E o espanto frequentemente nos visita, quando vivenciamos o contraste, o paradoxo do tempo assinalado pelo relógio versus o tempo por nós percebido.

É um tema que me mobiliza. Pra não ser excessivo (não fosse a poesia a linguagem da supressão e da concisão por excelência), vou compartilhar um poema sobre o tempo a cada postagem. Afinal, teremos tempo pra isso.








 

sábado, 30 de julho de 2016

O quereres


Somos seres desejantes por natureza. Desejamos alguém que nos atrai muito, desejamos aquele brinquedo que brilha em nossos olhos com promessas de infinito prazer quando somos crianças. 
Desejamos a paz mundial.  No fundo o que nos rege e nos move é o prazer. Na sua acepção mais ampla. Tudo, em primeira e última instância, remete a e implica no prazer. Ter paz de espírito nos dá prazer. Sentir-se útil também. Muito altruísmo acarreta uma sensação de prazer em quem o pratica. 

Prazeres emocionais, prazeres da alma são tão ou mais significativos que os dos sentidos e mesmo quando ambos se juntam e se potencializam mutuamente, predominam os mais intangíveis. Mesmo considerando que somos animais dotados, além de razão, de instintos. Um exemplo disso é a comida. É alimento, nutre, é vital, mas também satisfaz nossos sentidos. Mas satisfazê-los de forma solitária dificilmente será tão prazeroso quanto fazer isso na companhia de pessoas queridas. Os prazeres materiais e anímicos então se potencializam, quando compartilhados.

Assim costuma ser também no sexo. Existe quase um consenso quanto ao fato do afeto, que gera prazer emocional, tornar os aspectos sensoriais do sexo muito mais intensos. Vivenciamos em nossas vidas, vemos nos filmes e lemos nos livros a paixão levar o sexo a ser mais arrebatador. Seria legitima, para esses casos, a expressão “fazer amor”, não fosse a sua banalização como sinônimo de qualquer tipo de relação carnal.

O desejo e o desejar são tão amplos e diuturnos, que muitas vezes nem os distinguimos, a não ser quando é algo mais vultoso . Desejamos feliz Natal. Desejamos boa sorte, boa noite, boa viagem. Desejamos para o outro e para nós mesmos. É parte do nosso instinto coletivo, gregário. Talvez seja um dos desdobramentos de, no fundo, sermos todos um.


Desejo

Quem sabe esse gênio
resolva sair
e traga o elixir
do novo milênio?

Quem sabe os projetos
depois de um motim
do limbo libertos
floresçam enfim?

Talvez a paixão
seduza a razão
e a festa se dê

Um riso no ar
A chama no olhar
O gênio é você

                                                                                   

sexta-feira, 22 de julho de 2016

O movimento equilibra


Um dos meus mestres em psicomotricidade, Pedro Honório, marcava sempre a diferença entre o que ele chamava de cultura versus natura. O homem natural sob muitos aspectos se opõe ao cultural e se isso traz suas riquezas - poderíamos apontar inúmeros exemplos disso – traz também conflitos. O homem é educado para, dependendo de cada instância e circunstância, conter, controlar, reprimir e sufocar seus instintos.

Então cada impulso é regulado, passa pelo crivo da razão. E como o instinto, atávico, ou seja, a natura é força poderosa, não raro ele vence esse embate e isso tanto pode redundar em redenção quanto em desastre.

Impulsos podem nos guiar em ações positivas, benéficas, construtivas. É quando o ímpeto alimenta nossa coragem. É quando não nos refugiamos no pretexto covarde das pseudo-razões.
No aspecto sombrio da questão, certos impulsos podem levar a ações e decisões precipitadas, tresloucadas, mais que irracionais, insanas. Ou então prevalece a omissão, que também pode produzir resultados de conseqüências terríveis. Ambos, cada um ao seu modo, patológicos.

Uma das questões cruciais do homem é se mover no mundo, na vida, entre esses extremos e não necessariamente tendo que abdicar desses extremos, que vez por outra são mesmo a escolha mais saudável e buscar um delicado e um tanto paradoxal equilíbrio, já que lida com forças poderosas que o atraem para direções opostas.

Equilíbrio não é estado permanente e tampouco estático. Como tudo na vida, a começar pelos elétrons pulsáteis, pela expansão do Universo e pela nossa respiração, é dinâmico. Não são os dois pratos da balança permanentemente nivelados. A busca do equilíbrio se dá durante o movimento e na instabilidade.

Como sabiamente está estampado numa blusa minha: O movimento equilibra.


Relâmpago                                                              

Na entressombra
tem um resplandecer
que, fugaz
num momento inefável
faz-se endovenoso
imprime-se indelével
na alma
Retinas viram cometas

Então, sumário
tácito
se desvanece outra vez
na entressombra




                                                                                                       

                                                                                                         

sábado, 16 de julho de 2016

rir de ti e de si



Ridículo é o que desperta o riso. Diz-se que o homem é o único animal que ri. Hienas não contam, porque aquilo só parece riso, sem ser, daí a expressão sorriso de hiena significar o que significa.

Embora seja uma das evidências da superioridade e supremacia da espécie, o riso humano é primitivo, atávico, visceral. Então o ridículo é um conceito intimamente ligado a esse primitivismo. Desperta o riso sarcástico. Tem um quê de cruel e perverso. É quase impossível não rir de alguém que cai de bunda no chão ou comete uma gafe em público, Vanusa em elevado estado etílico inventando partes da letra do Hino Nacional para uma plateia de autoridades, que se esforçam piedosamente para não explodir em riso coletivo na cara dela. Como evitar?

Crianças frequentemente são um tanto cruéis. Sempre que têm uma chance, sacaneiam o colega por pura diversão e o prazer de rir disso. É parte da natureza humana, da nossa espécie superior. Esse prazer se estende ao adulto. O humor, se não é jocoso, crítico, meio ácido, é grande candidato a despertar mais bocejos que riso. Quando os produtores do desenho do Tom & Jerry decidiram transformar a dupla em amiguinhos, a coisa perdeu totalmente a graça. Mesmo sabendo que sempre vai se dar mal, torço pro Frajola conseguir pegar aquele chato do Piu-Piu.

A poesia quase sempre é tratada com muita reverência, até mesmo pelos poetas e isso acaba lhe conferindo uma aura de seriedade e profundidade. Nada contra isso, mas um certo humor de quando em quando não deprecia a sua nobreza. Que o digam os repentistas nordestinos nas emboladas e no cordel.

E rir é um grande remédio, inclusive rir de nós mesmos. Automedicação, nesses casos, é recomendável. Graça que é de graça. Graça Divina deve ser Deus morrendo (hahaha!) de rir de nós, suas criaturas.