Importante

Todos os textos do blog, em prosa e verso, a não ser quando creditado o autor, são de minha autoria e para serem usados de alguma forma, necessitam de prévia autorização.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Homoeda


Vida, pintura em tons de vinho, bem-vindo desalinho, arremetida e queda,

moedas numa fonte, o horizonte é o antes, do nada que é depois, coice

nos distraídos, pés em cacos de vidro, vida é fuga e mergulho, é silêncio é

barulho, sopa de entulho gelada, tudo ou nada em apostas, o avestruz dá

as costas, o homem gosta e desgosta e inaugura a angústia


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Tradúzias



A palavra faz que traduz

Lança luz

sobre o que arrebata

Mas, entrementes

a palavra não sente

Só retrata



Vejam no youtube o meu vídeo com 27 haicais:
http://www.youtube.com/watch?v=1DmHzlld5XU&feature=youtu.be

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Uma palavra vale mais que mil imagens (provérbio apátrida pensado e escrito com palavras)


Penso que, para sermos críticos, legitimar isso, temos que exercitar a autocrítica. Vou então fazer ambos.

Tenho refletido e até conversado com algumas pessoas, sobre o emprego da imagem de forma interativa com a palavra. O advento da internet não inventou a imagem como ilustração de textos, mas certamente a popularizou e a tornou muito mais usual e frequente. Como na internet o manuseio de imagens e o acesso a elas é tão fácil, quem antes escrevia e se atinha só à palavra, hoje não resiste à tentação de agregar imagem ao texto. 

No Japão, os poetas escrevem haicais, que são só texto e também haigás, que são haicais ilustrados. Muitos desses têm como ilustrador o próprio autor do texto. Como o haicai se disseminou no Ocidente, sofreu as adaptações previsíveis e o uso da imagem se ampliou para a fotografia. Eu mesmo utilizo esse recurso para ilustrar alguns haicais meus.

A grande questão não diz respeito ao uso das imagens, mas ao seu abuso, sua banalização. Para nos atermos apenas ao âmbito dos blogs, território dos mais profícuos do casamento texto-imagem, se fizermos um longo e livre passeio por eles, raro será nos depararmos com uma postagem num blog que não tenha imagem nenhuma. No próprio caso do meu, não me lembro se já postei alguma vez sem alguma imagem. No máximo usei imagens em preto e branco sobre esse fundo preto.

Não estou fazendo a apologia da volta ao tempo que texto, palavra gráfica era exclusividade dos livros. A internet instaurou a imagem como elemento fundamental, de certa forma mais enfaticamente que a televisão, pela maior interatividade e também porque se pode visualizar imagens não só em movimento, o que amplia as possibilidades de fruição visual. O que se discute e questiona é a banalização. No caso da poesia, o caráter “didático” do uso da imagem, que tenta explicar o texto, como se a palavra em si não tivesse o poder de significar, de produzir imagens na mente do leitor. Parece um processo inconsciente de negar e esvaziar os dons, a força da palavra e da poesia.

Vou continuar utilizando a imagem, sempre correndo riscos e portanto sempre preocupado em evitar os clichês, o previsível, o didático. Imagem como comentário do texto sim, e também num sentido lúdico. Nunca levando a imagem a competir com o texto, distrair a atenção do leitor pro essencial que é a palavra, os versos, a poesia.


Vide bula


Palavra é ritmo e dança
Brinquedo de desmontar
Palavra é de som e ar
Aguda ponta de lança

Contida, exaltada. chula
Chicote ou doce canção
Carícia ou demolição
Na dúvida vide bula

É mapa, é lei, estrutura
É luz numa mina escura
Ou pura contradição

Mentira mais verdadeira
Verdade mais traiçoeira
Não diz sim e sim diz não





domingo, 26 de agosto de 2012

Improvisação e elaboração


No recente sarau da Confraria da poesia informal, da qual sou integrante, a parte final, dedicada à música, teve a participação de rappers de Petrópolis, dentre eles, Marcelo Moraes e Lucas Sixel, excelentes, por sinal.

Ouvindo-os lá, com bastante interesse, dizendo seus versos rimados de improviso, de conteúdo inconformista e motivação niilista, me vieram à mente os tradicionais repentistas nordestinos. Em ambos os casos é impressionante a rapidez do raciocínio produzindo instantaneidades poéticas, em contraste com a maneira habitual da grande maioria de nós, poetas, que criamos de forma mais pensada, mais lenta e sem, de certa forma, essa mesma espontaneidade exuberante dos rappers e repentistas.


RAP...REPente...me chama atenção a semelhança sonora entre essas duas palavras que designam duas formas singulares de expressão poética.

Enquanto o rap expressa uma ácida crítica social, inconformismo, o repente já tem um viés mais irreverente e leve, também crítico com os costumes, mas no qual predomina o humor. Outro traço em comum em ambos é a linguagem despojada e direta que cria ressonância tão imediata em audiências das mais diversificadas, quão imediata é a feitura dos versos. Repente e rap são instantâneos e “em tempo real”, a percussão que costuma acompanhá-las acentua o conceito de “música falada”. 

A poesia, digamos, mais tradicional, essa que é primeiro pensada e escrita e só depois de pronta é lida, ou declamada, ou como se diz agora, dita, tem tentado “ir onde o povo está”, se tornar mais palpitante e sair do papel e das telas virtuais para os saraus ao vivo, que vão aumentando em número e se popularizando.

Não sou rapper nem repentista, mas sou um poeta que admira e se fascina com essas manifestações poéticas e, ao meu modo, com um soneto “pensado”, homenageio os repentistas e ao mesmo tempo prometo vindoura e semelhante homenagem ao rap e seus bravos rappers.



Adaga


Talvez descreva as cores da bandeira
De um bom adorno tenha a serventia
Ou amenize horrores da trincheira
Será que tem função a poesia?

Cativo é o seu lugar na prateleira
da mais sofisticada livraria
O velho e contumaz chá de cadeira
na fila pra fatal taxidermia 

Roteiro da anacrônica utopia
Do salto que o temor retém na beira
Que mais a musa, o herói, que alegorias?

É sábio o repentista, que na feira
resgata o Bobo, a adaga da poesia
Cortante, quanto mais é brincadeira 


sábado, 18 de agosto de 2012

amor amore amour liebe love

Sou do clã dos poetas que teimam em recorrer à temática do amor, porque acredito que a poesia nos salva e o amor dá mais sentido ao viver e a tudo que implica nesse verbo regular transitivo direto da segunda conjugação.




sábado, 4 de agosto de 2012

O primeiro dos últimos?



A forte carga simbólica dos Jogos Olímpicos no imaginário coletivo é de chamar atenção. Desde a Antiguidade o Homem põe à prova o ideal da força, velocidade e resistência. E os tempos modernos agregaram a isso, visibilidade mundial, pressões comerciais, tecnologia. A celebração maior da excelência.



E excelência implica em autoexigência, expectativas, estresse, frustração. O ouro destinado ao herói, ao melhor entre os melhores é só para um. Honra individual e patriótica em jogo. Países que têm interesse em fazer do bom desempenho esportivo peça de propaganda e autoafirmação política. Na China, crianças com talento potencial são obrigadas pelo governo, mesmo contra a vontade de suas famílias, a ingressar em programas de formação de pequenos atletas.


O esporte é plasticamente algo belo e também emociona, mobiliza, mostra histórias de superação, sacrifícios, mas nem tudo no esporte é glamour. As pressões internas e externas pela infalibilidade que a excelência impõe não raro levam a cenas de inconformismo e desespero de quem quase chegou no cume do Olimpo e não se perdoa pela sua humanidade, que não lhe basta para reinvidicar lugar entre semideuses.


E as lágrimas que rolam molham o rosto e a medalha não acalentada e que pra ele parece nada valer.