
Palavras, sentimentos, sensações, fatos, imagens, desencadeiam poemas.
Estou vivenciando agora um sentimento repleto de palavras que parecem um video
de manifestantes numa passeata, do qual suprimiram (quiçá censuraram) o som.
Sentimento de incomunicabilidade que trespassa a alma do poeta (e aposto que de
muitos dos seus pares). De falar, gritar até e ser mal ouvido pela indiferença
de ouvidos moucos e individualistas.
A solitária incomunicabilidade do poeta…eis o tema.
Depois do Big Bang
do meu universo
junto meus cacos
que não dão três versos
(Narrando
as agruras com laivos de humor, nada mau pro começo)
Escritos a sangue…não, aqui não cabe verso tão dramático, melhor…:
Só um yang
e um yin
Converso comigo
Me faço amigo de mim…(uma rima interna aqui produz uma boa
sonoridade)
E no fim
desse autocarinho
por falar sozinho
me vestem camisa-de-força…(a incomunicabilidade, os ouvidos moucos da
indiferença entram no texto)
E assim mal vestido
sigo pro olvido
de não ser ouvido…(o tema se desenvolve…a paronímia do olvido com ouvido tira um pouco o
tom solene da queixa)
nesse fim de baile
doído e duro (ou) sem futuro
escrever no escuro
poemas em braile…(no desfecho, além de outra paronímia em baile/braile, a conclusão
metafórica apontando pra inexorabilidade da solidão intrínseca de um artista ao
criar.)
Ah! Falta o título. Camisa-de-força? Não. Bem, acho que um se impõe: Na
solitária.
Então, ficou assim:
Na solitária
Depois do Big Bang
do meu universo
junto meus cacos
que não dão três versos
Só um yang
e um yin
Converso comigo
Me faço amigo de mim
E no fim
desse autocarinho
por falar sozinho
me vestem camisa-de-força
E assim mal vestido
sigo pro olvido
de não ser ouvido
nesse fim de baile
sem futuro
escrever no escuro
poemas em braile