
E sendo assim, o mar, bem mais até que na Península Ibérica,
por nossas dimensões de continente, é permanente fonte de inspiração, quando
não de literalmente lançar quilhas ao mar, pelo menos de frequentar o litoral,
nadar, surfar ou simplesmente contemplar o sol em seus poéticos mergulhos
marítimos.
O mar é inesgotável metáfora. Como a vida, tem mistérios,
perigos, desafios, belezas, aventuras e dramas.
E a Poesia é das principais clientes das metáforas. Nada como
o mar como cenário e coprotagonista dos –
a exemplo do sol – mergulhos dos poetas. Desde os Lusíadas de Camões, o mais
extenso e denso dos poemas marítimos, e “Navegar é preciso, viver não é preciso”
de Fernando Pessoa, litros e mais litros de poesia ao e sobre (e sob) o mar vêm
sendo escritos, com suas grandes vagas,
naufrágios, sereias, baleias, cais redentores, batalhas e tesouros
submersos.
Minha produção não poderia ter essa lacuna. O poema marítimo
que escolhi, embora seja pródigo em metáforas, não é totalmente metafórico,
visto que inspirado em uma situação real vivenciada pelo poeta blogueiro que
vos fala.
Saga II
(Tormento e tormenta)
Meu mundo pequeno
de ínfimos ritos
O vento na
fronte
O turvo horizonte
Abafo meus gritos
Me finjo sereno
E o barco meneia
na vaga bravia
Furor de sereia
Aquática orgia
A face encharcada
de água salgada
(seria de pranto?)
não lava o
espanto
Netuno que dança
no sal da
vingança
A faca no
vento
Tormenta ou
tormento?
Do caos à
deriva
ao cais que
se
aviva
se estende a
agonia
Pedir calmaria
ao deus não
aplaca
O vento na
faca
o sangue evapora
O sangue da
aurora
O céu mais vermelho
O mar é
o
espelho
do deus que
se
aparta
Atenas, Esparta
no embate aqui dentro
O espelho no
centro
da híbrida arena
Um quase argonauta
A pena que
falta?
Dureza do solo
Dionísio e
Apolo
disputam-me
a
alma
Já tem calmaria
mas foi-se-me
a
calma
A terra me
afaga
mas vive a
lembrança
de deuses e
danças
na ínfima saga