Importante

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sábado, 30 de julho de 2016

O quereres


Somos seres desejantes por natureza. Desejamos alguém que nos atrai muito, desejamos aquele brinquedo que brilha em nossos olhos com promessas de infinito prazer quando somos crianças. 
Desejamos a paz mundial.  No fundo o que nos rege e nos move é o prazer. Na sua acepção mais ampla. Tudo, em primeira e última instância, remete a e implica no prazer. Ter paz de espírito nos dá prazer. Sentir-se útil também. Muito altruísmo acarreta uma sensação de prazer em quem o pratica. 

Prazeres emocionais, prazeres da alma são tão ou mais significativos que os dos sentidos e mesmo quando ambos se juntam e se potencializam mutuamente, predominam os mais intangíveis. Mesmo considerando que somos animais dotados, além de razão, de instintos. Um exemplo disso é a comida. É alimento, nutre, é vital, mas também satisfaz nossos sentidos. Mas satisfazê-los de forma solitária dificilmente será tão prazeroso quanto fazer isso na companhia de pessoas queridas. Os prazeres materiais e anímicos então se potencializam, quando compartilhados.

Assim costuma ser também no sexo. Existe quase um consenso quanto ao fato do afeto, que gera prazer emocional, tornar os aspectos sensoriais do sexo muito mais intensos. Vivenciamos em nossas vidas, vemos nos filmes e lemos nos livros a paixão levar o sexo a ser mais arrebatador. Seria legitima, para esses casos, a expressão “fazer amor”, não fosse a sua banalização como sinônimo de qualquer tipo de relação carnal.

O desejo e o desejar são tão amplos e diuturnos, que muitas vezes nem os distinguimos, a não ser quando é algo mais vultoso . Desejamos feliz Natal. Desejamos boa sorte, boa noite, boa viagem. Desejamos para o outro e para nós mesmos. É parte do nosso instinto coletivo, gregário. Talvez seja um dos desdobramentos de, no fundo, sermos todos um.


Desejo

Quem sabe esse gênio
resolva sair
e traga o elixir
do novo milênio?

Quem sabe os projetos
depois de um motim
do limbo libertos
floresçam enfim?

Talvez a paixão
seduza a razão
e a festa se dê

Um riso no ar
A chama no olhar
O gênio é você

                                                                                   

sexta-feira, 22 de julho de 2016

O movimento equilibra


Um dos meus mestres em psicomotricidade, Pedro Honório, marcava sempre a diferença entre o que ele chamava de cultura versus natura. O homem natural sob muitos aspectos se opõe ao cultural e se isso traz suas riquezas - poderíamos apontar inúmeros exemplos disso – traz também conflitos. O homem é educado para, dependendo de cada instância e circunstância, conter, controlar, reprimir e sufocar seus instintos.

Então cada impulso é regulado, passa pelo crivo da razão. E como o instinto, atávico, ou seja, a natura é força poderosa, não raro ele vence esse embate e isso tanto pode redundar em redenção quanto em desastre.

Impulsos podem nos guiar em ações positivas, benéficas, construtivas. É quando o ímpeto alimenta nossa coragem. É quando não nos refugiamos no pretexto covarde das pseudo-razões.
No aspecto sombrio da questão, certos impulsos podem levar a ações e decisões precipitadas, tresloucadas, mais que irracionais, insanas. Ou então prevalece a omissão, que também pode produzir resultados de conseqüências terríveis. Ambos, cada um ao seu modo, patológicos.

Uma das questões cruciais do homem é se mover no mundo, na vida, entre esses extremos e não necessariamente tendo que abdicar desses extremos, que vez por outra são mesmo a escolha mais saudável e buscar um delicado e um tanto paradoxal equilíbrio, já que lida com forças poderosas que o atraem para direções opostas.

Equilíbrio não é estado permanente e tampouco estático. Como tudo na vida, a começar pelos elétrons pulsáteis, pela expansão do Universo e pela nossa respiração, é dinâmico. Não são os dois pratos da balança permanentemente nivelados. A busca do equilíbrio se dá durante o movimento e na instabilidade.

Como sabiamente está estampado numa blusa minha: O movimento equilibra.


Relâmpago                                                              

Na entressombra
tem um resplandecer
que, fugaz
num momento inefável
faz-se endovenoso
imprime-se indelével
na alma
Retinas viram cometas

Então, sumário
tácito
se desvanece outra vez
na entressombra




                                                                                                       

                                                                                                         

sábado, 16 de julho de 2016

rir de ti e de si



Ridículo é o que desperta o riso. Diz-se que o homem é o único animal que ri. Hienas não contam, porque aquilo só parece riso, sem ser, daí a expressão sorriso de hiena significar o que significa.

Embora seja uma das evidências da superioridade e supremacia da espécie, o riso humano é primitivo, atávico, visceral. Então o ridículo é um conceito intimamente ligado a esse primitivismo. Desperta o riso sarcástico. Tem um quê de cruel e perverso. É quase impossível não rir de alguém que cai de bunda no chão ou comete uma gafe em público, Vanusa em elevado estado etílico inventando partes da letra do Hino Nacional para uma plateia de autoridades, que se esforçam piedosamente para não explodir em riso coletivo na cara dela. Como evitar?

Crianças frequentemente são um tanto cruéis. Sempre que têm uma chance, sacaneiam o colega por pura diversão e o prazer de rir disso. É parte da natureza humana, da nossa espécie superior. Esse prazer se estende ao adulto. O humor, se não é jocoso, crítico, meio ácido, é grande candidato a despertar mais bocejos que riso. Quando os produtores do desenho do Tom & Jerry decidiram transformar a dupla em amiguinhos, a coisa perdeu totalmente a graça. Mesmo sabendo que sempre vai se dar mal, torço pro Frajola conseguir pegar aquele chato do Piu-Piu.

A poesia quase sempre é tratada com muita reverência, até mesmo pelos poetas e isso acaba lhe conferindo uma aura de seriedade e profundidade. Nada contra isso, mas um certo humor de quando em quando não deprecia a sua nobreza. Que o digam os repentistas nordestinos nas emboladas e no cordel.

E rir é um grande remédio, inclusive rir de nós mesmos. Automedicação, nesses casos, é recomendável. Graça que é de graça. Graça Divina deve ser Deus morrendo (hahaha!) de rir de nós, suas criaturas.









quinta-feira, 7 de julho de 2016

O sentido e os sentidos




Qual filósofo teria determinado que sentimentos são entidades abstratas? Quais as premissas? A de que o que não se pode tocar ou ver não seria concretude? E a música? Seria ela classificável no elenco das abstrações? Ou seria a música uma concretude? Pra mim um arco que se atrita com cordas produz concretude sonora. Por outro lado, um músico ou maestro que lê uma partitura sem executá-la num instrumento musical, ouve essa música mentalmente e só quando essa partitura é lida e executada, a música em sua faceta mais, digamos, concreta vem à tona.  Partitura é o mar tranquilo e silencioso e música enquanto concretude são ondas colidindo com rochedos.

Quem impôs a regra de que sentimento é abstrato? Amores e ódios, euforias e tédios doem ou dão prazer, vertem lágrimas e precipitam risadas. Isso pra mim é concretude, mesmo intangível e invisível.

Mas como artista e mais particularmente poeta, uso a palavra e o verso pra traduzir tudo isso. E esses palavrersos vão sendo os mediadores entre o sentido e os sentidos. O etéreo (ou nem tanto) sentimento virado no cimento dos sons das palavras, significantes remetendo a significados. E tome entrelaçamentos e intercorrências de palavras, invenções, pulsos como os de corpos que vivem, manancial da emoção convertido em razão semântica e de volta à emoção. Neologismo, invenções, jogos de armar e desmontar.

Poetas são prestidigitadores de signos e pontes entre o humano e o sublime. Palavra lida, dita, cantada, gritada, sussurrada. Poemúsica, poemusas, o inaudito ganhando a emoção do som, pavão que abre seu diverso leque de versos, soco no estômago e encantamento, eternidade e momento, sacro e profano, divino e humano.


A poesia sobrevive de nos fazer transversos, uns dos outros.


sexta-feira, 1 de julho de 2016

O soma e as somas


Hoje viajei no metrô e como não tinha nada pra ler, comecei a observar as pessoas e ver o quanto somos inquietos. Ninguém fica parado por mais de um ou dois segundos, a não ser que esteja dormindo. Temos uma natureza cinética onde tudo remete a movimento, já a partir da respiração, dos batimentos do coração e do piscar de olhos, induzidos pelo nosso sistema nervoso autônomo. Um coça o nariz, outro cruza os braços, outro descruza as pernas, outro mete a mão no bolso. Nada para: mãos,  pés, cabeça, olhos. Observei isso até em mim. Vivos, pulsáteis, nos movemos. A linguagem sem palavras do corpo traduzida aqui em palavras nesta prosa poética:



Réus da densidade, vítimas da gravidade. Como somos somáticos! Densos. Asmáticos. Tensos. Um corpo que porta seu anima nunca sossega nem ao dormir. Perene refrega. Gente pisca (bichos também), estala dedos, coça a cabeça se perde a condução. Tudo vem pra mão, que fala junto com a boca. Gente verte lágrimas (bichos não), até quando se alegra. Até tem regras. Etiqueta. Mas somos diversos. Fazemos discursos, piadas, versos, que o corpo somatiza. Abraços de urso, pisadas no calo. Dói, como ignorá-lo? Alma de inquietudes. O corpo traduz sombra e luz, vícios, virtudes. Nos nós da densidade, cá estamos nós, já com saudades do que ainda não veio. Copo e corpo meio vazio ou meio cheio?