Importante

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domingo, 24 de janeiro de 2016

Transformações



Nos domínios do poético, território da mais rasgada subjetividade, metáforas, antíteses, paradoxos e tantas outras figuras de linguagem abastecem de imagens a mente de quem escreve e de quem lê.

Deste modo a metade superior de um copo meio cheio de água, pode não ser vista como vazia e sim cheia de ar, ou de mágoa, de Deus, de placidez, enfim, do que a imaginação propuser e instigar.

O preto e branco, a ausência de cor, pode representar frieza, solidão, mas também pode sugerir reflexão ou mesmo concretude. Já uma profusão de cores exuberante tanto pode propor tensão como alegria e dependendo do contexto, até tragédia e morte.

Subjetividade e a carpintaria poética de um cenário e contexto levam a esses resultados contrastantes. Em Vênus, soneto que depois virou a letra de um blues (!), o foco está na transição do preto e branco para a cor, dando relevo simbólico ao advento do amor e sua consequente transcendência, em sua reversão ao branco, síntese da totalidade pura e ínteira.


Vênus

Tu arco-íris e eu a inundar-me
Em luminosas caleidoscopias
Vivo a trocar as noites pelos dias
Roubas-me o sono, acionas meus alarmes

Em preto-e-branco construí meu mundo
De muitos cinzas pude colori-lo
Agora vens, fractal Vênus de Milo
Trazer-me cor e em cor então me afundo

Cada emoção revela o seu matiz
E pouco a pouco o pulso volta à vida
impulsionando a máquina motriz

Sorvo-te seiva multicolorida
E emano luz que jorra em chafariz
Sou prisma a dar à luz cor revertida


sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Revisitando Eros


Há algum tempo fiz um post sobre os poemas eróticos do Drummond, publicados postumamente, porque, tímido, Drummond não os quis tornar públicos. Minha timidez não chega aos pés da do grande autor de O elefante, portanto não vai ser necessário que eu parta dessa pra uma melhor, pra que meus poemas, haikais e sonetos eróticos se façam conhecer.

Erotismo é representação do sexo, da sexualidade e de suas manifestações nos seus vários aspectos e não o sexo propriamente dito. Logo, na Arte, mais na Literatura em particular e mais ainda na poesia, as metáforas estão muito presentes. Claro que se pode também ser mais direto, a criação e expressão do artista é livre. Mas na poesia erótica, o limiar entre o erotismo e o chulo e vulgar, se não chega de fato a ser tênue, pode se tornar. 

Tenho alguns textos eróticos numa linguagem, digamos, mais arrebatada, mas – não esquecendo a timidez menor que a do mestre – escolhi pro post, um bem metafórico, que cria um contraste entre o amor carnal e as liturgias de um templo religioso, cuja ponte entre o sexual do primeiro e o transcendental do segundo é o sublime.


Templo


Em minha catedral particular
não tem aqueles santos nos vitrais
nem Bíblias colocadas nos missais
mas tem sacerdotisa no altar

A hóstia oferecida a consagrar
os cânones sublimes e os carnais
Nas longas liturgias guturais
o êxtase ultrapassa o limiar

Sussurro meu desejo em confissão
No templo do teu corpo a adoração
que em comunhão com o meu me faz melhor

O ar recende a incenso e devoção
Nem cruz nem Via-Crucis na paixão
Teu sal na água benta do suor




(Haigá ilustrado por Ana Eliza Frazão)


sábado, 9 de janeiro de 2016

Sentidos e afetos


Nostálgico é o estereótipo do saudosista, que vive do passado e para o passado, como forma de escapismo e negação do presente e, com isso, despreza o novo, o contemporâneo, pois parte da premissa, bastante preconceituosa, de que tudo de bom já foi feito. O ótimo cineasta americano Peter Bogdanovitch afirmou na década de 1970, que os bons filmes já tinham todos sido feitos. Deve ter tido só a intenção de ser reverente a Frank Capra, Antonioni, Bergman, Kurozawa, mas o tempo se encarregou de contradizer sua tirada passional.

Não sou um saudosista, mas me apraz cultivar boas lembranças e isso não me impede de viver e valorizar o presente. Meu parceiro, Antonio Jardim, um compositor com conceitos originais e pertinentes sobre música e arte, sempre afirma que o que é bom, o que vale a pena, sempre é memorável.

Não fiz muitos poemas de reminiscências, mas por um tenho especial apreço, porque além de tudo ele atualiza um prazer que quando temos, nos torna crianças de novo. Quando como certas frutas, me lambuzo todo e se estou em casa, faço isso com o mínimo possível de roupas. Volto à infância e ao mesmo tempo permaneço no presente. Pequenos prazeres. Sentidos e afetos que se atualizam. Sempre.


Sorriso


Uma fatia
de melancia
é um sorriso
vermelho, doce, preciso
Pedaço do paraíso
que se deixa comer
com prazer
e alegria
Carinho maroto da tia
ainda enxuta
meio ar de puta
da fantasia do garoto

Fêmea fruta
Uma fatia farta
Mais Atenas que Esparta
Meia-lua
que carmim
e ainda mais crua
Mais arlequim
do que pierrô
Feito batom na boca de Bardot

Santa melancia
A cura da melancolia
Doçura de musa
que me lambuza
e me arrebata
feito beijo de pagã
na folia, longa data
do pera, uva, ou maçã
E nem tinha melancia
que eu imaginava
imerso em rio de lava
que a gata ia negar

E eu ainda assim sorria
sorrisos de melancia
melado até as orelhas
Centelhas brotando do olhar


domingo, 3 de janeiro de 2016

Do quarto pro mundo

São 1460 dias, ou 4 anos de blog. Quando o comecei, em 3 de janeiro de 2012, não tinha um plano de voo de longo curso. Ou o combustível está rendendo mais que eu esperava ou minha aeronave aprendeu a planar sem precisar de motor.

São 39 mil visitas que me honraram com sua atenção, comentários, incentivos. Tem sido uma viagem muito estimulante.  Mesmo considerando-se que é um blog de poesia, 39 mil não chega a ser uma proeza, mas pra mim é um prazer (não resisti ao jogo fonético (proeza/prazer).

Ao longo desses 4 anos discorri em mais de duzentas postagens (haja assunto!) sobre muitos temas inerentes à poesia e aos fazeres poéticos, “praia” em que me sinto muito à vontade. Mas sem que tivesse premeditado, acabei em vários momentos abordando também assuntos pessoais, como por exemplo o parto do meu filho, entre outras questões existenciais e comportamentais.

Na verdade, dez anos atrás, tive outro blog, que me deu também prazer em fazer, mas o servidor encerrou suas atividades, o blog foi tirado do ar e o conteúdo, que não salvei, se perdeu.  2012 já viu um Jorge Ricardo mais metódico e comprometido.

O momento em que me sento pra escrever no blog é sempre especial. Sinto-me conversando com meus seguidores e leitores eventuais e isso me traz grande satisfação. Não sei se daqui em diante o blá blá blog vai manter este formato, que vem desde os primórdios, ou se haverá alguma metamorfose, mas enquanto o prazer persistir vou estar aqui com volúpia de compartilhar com todos minha criação e minhas visões a respeito  da poesia e do poético.

Um agradecimento especial a Roseli Pedroso, minha amiga blogueira, contista e cronista, que tem a avidez de ter dois blogs simultaneamente. Foi ela quem me incentivou a criar o blog e inclusive me deu preciosas dicas de como montá-lo visualmente. Valeu, Roseli, você é a madrinha do blá!


Obrigado a todos. Não sei se a poesia é capaz de mudar o mundo, mas uma coisa é certa, ela pode tocar corações e mentes e, ainda bem, não sabemos qual é o limite disso. Longa vida à poesia!