Importante

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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Desconheço, logo, estranho

O verbo estranhar e o substantivo estranho se referem à nossa reação diante do novo e, por consequência, do desconhecido. Porque se trata de lugar, situação ou pessoa que não conhecemos e de forma instintiva, assumimos uma postura inicial de cautela, de autoproteção ante esse novo.


Essas palavras, em seu uso corriqueiro, acabaram ganhando o estigma de um único e negativo significado, apenas um sinônimo de esquisito e até suspeito. Assim, dizer que um cara ou um lugar é estranho já causa tensão, suspeitas.

Os artistas mais provocativos se apropriam desse recurso para mobilizar sua audiência, levá-la a pensar, questionar padrões, o que se convencionou chamar de “causar estranhamento”. Andy Wahrol é um bom exemplo disso, ao reproduzir em telas, gigantescas latas da sopa Campbell’s, na década de 1960, provocando o público a refletir sobre o conceito de valor intrínseco e extrínseco de obras de arte, extraindo um objeto banal do cotidiano corriqueiro. Mas o artista dadaísta Marcel Duchamp já tinha feito isso em 1917, com a obra “A fonte”, que nada mais era que um urinol, desses de banheiros públicos.

Depois do nefasto episódio de 11 de setembro de 2001, os tempos globais se tornaram ainda mais paranóicos e o que se viu a partir daí, foi uma espécie de encarnação na realidade do clima dos filmes de ficção científica de tanto sucesso na década de 1950, pós Segunda Guerra Mundial e prelúdio da recente Guerra Fria que polarizou o planeta em comunismo e capitalismo. A ótica era a do extraterrestre hostil, malvado e predador, afinal eram estranhos nos visitando e isso remetia mais a invasão e dominação do que a intercâmbio pacífico entre civilizações. A palavra estranho a serviço do atirar primeiro e perguntar depois.

Embora, as manifestações de arte que levam a estranhamentos tenham se tornado mais frequentes – estão aí as Bienais de artes plásticas para evidenciar isso - ainda predominam os conceitos do “belo”, do “estético”, do refrão da música que pega, do bordão de humor de fácil riso, do filme com princípio, meio e fim e ritmo ágil e esse é o padrão, o do senso comum e o que não se enquadra nesse panorama é considerado alternativo, “cabeça”, experimental e, porque não – estranho. É Hermeto Pascoal fazendo música criativa, meio misturada com performance, numa chaleira com água dentro, é Ferreira Gullar em poemas com inversões de sentido, o que os franceses chamam de "detournament" (desvios), é Caetano Veloso exercitando sua porção cineasta com um “Cinema Falado” que quase ninguém entendeu e poucos gostaram, a música dodecafônica soando “desafinada” e desconexa para ouvidos não habituados, a “body art” cobrindo inteiramente corpos e os transformando em grandes tatoos ambulantes.


O fato ao qual todos deveríamos nos curvar é que ninguém pode impor ao outro o seu “bom gosto”. E que estranhamentos em arte têm no mínimo a saudável função de nos tirar da zona de conforto do já conhecido, do “mais do mesmo”.





sábado, 19 de setembro de 2015

Biotônicas

Volta e meia me defronto com o que chamo de poesia átona.


As palavras são compostas de sílabas tônicas e átonas. Elas são classificadas assim por comparação. Ca-sa: a sílaba forte é ca e a que sobra, mais fraca, é sa, sílaba átona. Barbari-da-de: a sílaba da é forte, tônica e todas as outras são átonas, sendo que bar é um meio termo, subtônica. Isso é relevante na métrica poética.

A chamada poesia de versos livres, que ao contrário das formas fixas, desconsidera estrofes, rimas, métricas e tal, como o termo já expressa, é livre e certamente a de maior produção e não raro o que chamo de poemas átonos estão lá pra ser lidos.

Poema átono é o que tem excessiva incidência de palavras polissílabas, que têm muitas sílabas átonas pra apenas uma tônica, ou palavras di e trissílabas, cuja sílaba tônica não é tão forte. Disso costuma resultar um texto frouxo e de pouca expressão, do ponto de vista do som e a sonoridade, a musicalidade das palavras é bastante importante.

Para o bem do poema, seja livre ou de formas fixas, deveria sempre ser considerado o uso de palavras oxítonas, principalmente no fim do verso e também das palavras monossílabas e proparoxítonas. Depois que se introjeta a importância disso pra boa sonoridade de um texto, instintivamente o poeta introduz palavras assim e a coisa tende a não soar forçada.

As palavras oxítonas (trovão, farol, plural, carmim, paiol, engasgou, confusão), com sua tônica no fim, soam fortes. Assim como também as monossílabas, que por terem uma sílaba só, (com, vão, sim, dom, sol, sal), são todas necessariamente tônicas. Proparoxítonas também soam fortes, com sua tônica seguida de duas átonas (flâmula, arquétipo, física, tímida, prática).

Pensando nisso, a título de exercício e com espírito lúdico, escrevi alguns sonetos que só têm palavras monossílabas e também só com palavras proparoxítonas. Cito aqui a primeira estrofe de um desses, chamado “No fim do mar”, uma radicalização visando a ressaltar o impacto sonoro do uso desses tipos de palavras.

No fim do mar

Ver o sol se pôr no fim do mar
Luz que flui na cor da flor mais sã
diz por si que a dor não é tão vã
Já nos traz um triz a mais de ar

Poesia como linguagem, não importa que tendência siga, que vertente e influências, é composta de significado e significante, conteúdo e forma e a forma conjuga ritmo e sonoridade. Tudo isso junto nos co-move. E a tonicidade nas palavras que habitam o poema é de preciosa ajuda para que nossos textos causem essa comoção necessária, sem a qual a poesia seria meio inócua.






sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Alumbramentos

Alguns temas, objetos, situações, são recorrentes na minha escrita. Chamo essas quase fixações de alumbramentos (1. Ato ou efeito de alumbrar; iluminar; 2. Estado de quem se maravilha; deslumbramento; 3. Inspiração, arrebatamento, revelação).


Uns são concretos, a maioria, mas mesmo sendo objetos palpáveis, é claro que são metafóricos. Não importa a forma poética, se fixa ou livre, lá estão, assíduos, o espelho, o horizonte, os recomeços, carrosséis, palhaços, bumerangues, barcos, o mar, a própria poesia, as estrelas, os paradoxos humanos, o lado lúdico da vida, o tempo, o presente.

Certamente não vou me lembrar de todos, mas esses talvez sejam os mais frequentes e me encorajam a revisitá-los e com isso sobrepujar o receio de ser repetitivo. Como sou dos que pensam que a poesia é a negação do banal e que a vida cotidiana por suas repetições reverbera as banalidades, dou vazão a essas obstinações temáticas não sem temer que a originalidade me escape.

É interessante constatar que a maioria desses temas e objetos remetem a movimento e movimento remete a vida, ou seja, até no ato de digitar ou mesmo manuscrever os poemas, o movimento está presente. Vida refletida na palavra, seu som e no que ela evoca. Vida real misturada com imaginação. Da imaginação do poeta diretamente pra imaginação do leitor.


O poeta erige seu microcosmo com suas obsessões, delírios, esperanças, desencantos, euforias, perguntas sem resposta (ao poeta cabe muito mais indagar que responder), rir inclusive de si mesmo, brincar de pegar o leitor de surpresa. Os temas recorrentes são visitas nem sempre convidadas, simultaneamente paisagem, trilha sonora e protagonista de filmes cuja imagem, som e movimento são “só” subjacentes às palavras bordadas no tecido do poema.


sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Inquietações

Deus deve ter criado o Universo e a vida num momento de inquietação. E se nessa criação tem o seu DNA, então as inquietudes são uma herança divina.

Ou então minha percepção disso é com lupa, pelo fato de ter empatia com os inquietos e suas criações desassossegadas Fernando Pessoa verseja num poema: “Não escrevo para agradar nem desagradar, escrevo para desassossegar”.

Reflito sobre os inquietos em geral, não só poetas, não só artistas. Einstein era dono de uma mente muito inquieta e sabe-se que muitos dos seus insights científicos ocorreram em sonhos. Os inquietos, os criativos, os que não se contentam apenas com o que já é e sonham com o improvável até torná-lo realidade, esses é que movem o mundo. A inquietude do Aleijadinho e suas inquietações o levaram a usar seus cinzéis amarrados aos seus erodidos braços para poder prosseguir na sua obra singular. Freud foi um obstinado em seu mergulho no não visível inconsciente humano. Inquieto e obstinado foi também Augusto Ruschi, a maior autoridade mundial em orquídeas e colibris, uma vida inteira dedicada a estudá-los e que morreu na floresta onde viviam, envenenado por um sapo. Hermeto Paschoal faz e toca música no piano, no sax, mas inquietamente vê musicalidade em quase tudo e transforma panelas e utensílios de cozinha, entre outros objetos inesperados, em instrumentos musicais. Inúmeros artistas de rua surpreendem em desassossegada criatividade improvisando e desafiando a lógica.

E no território da poesia, além de Pessoa, temos os chamados poetas malditos (na época maldito não era apenas um rótulo envolto em charme e glamour), Malarmé, Rimbaud, Verlaine,  Baudelaire e Augusto dos Anjos. Rechearam sua arte poética com suas angústias, seus espantos, sem se contentar  em emular seus pares acadêmicos. Assim foi também com os concretistas, com sua estética de transgredir com a poesia visual, com o papel do  significante muitas vezes sobrepujando o do significado e a introdução do lúdico e das desconstruções da palavra em despalavra.


Na Ciência, na Arte e na vida, o quieto não leva ao desbravar, ao novo nem ao inovador. Deixemos a quietude para os monges do Nepal. E que o fogo da criação continue ardendo, entres choros e risos.