Importante

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sábado, 28 de fevereiro de 2015

Sem receita


O amor, quando é real e não algo que só nos parece ser, é experiência pessoal e intransferível. Por isso mesmo não cabe em fórmulas, receitas. A experiência de um indivíduo não se aplica a outro. Cada pessoa tem seus próprios conceitos – e por que não, também alguns equívocos – a respeito do amor.

A palavra amor, significante, com frequência ganha mais importância do que ela significa e representa. O que se vê é o abuso da palavra e com isso a banalização tanto do significante quanto do significado. Usa-se a palavra como uma espécie de coringa e panaceia pra quase tudo. A expressão fazer amor virou um sinônimo de ter relações sexuais. Não há nada de condenável em tê-las “sem (ou mesmo com) amor”, mas no ideário vigente para a maioria, parece que tudo tem que pelo menos aparentar amor.

Amor tem licença poética. Ou pelo menos deveria ter, sem ser uma exigência, ser essa entidade opressora. Não é à toa que tantos se assustam com a sua possibilidade, seu advento, seu prenúncio.

O amor não é uma coisa abstrata, perfeita e redentora que teimamos em pensar que é. Muitas frustrações e decepções se devem às nossas idealizações distorcidas. Porque o amor que a gente espera é um constructo nosso, que nos leva a forjar grandes expectativas. É como ir assistir a um filme esperando que ele vá ser a resposta definitiva para os nossos anseios, desejos, sonhos e sair do cinema com a sensação de que aquele bom filme era só propaganda enganosa.

Precisamos estar abertos. Como tudo que é novo, o amor como ele é – e não o que a gente vive antecipadamente na nossa fantasia – nos causa estranhamento, e aquele constructo prévio, em outras palavras, nossos preconceitos a respeito, que só nos levam aos desencontros, deve se transformar numa experiência a quatro mãos, dinâmica, vivenciada não no “pré” e sim no “durante”, com as nuances do aprendizado, da entrega, da aceitação, da interação. Sem receitas nem moldes genéricos.


Ah, morosos...

Tem o amor e o amor
Um que nos faz livres
Outro que é de nós senhor
Um não exige em retorno
O outro nos prende num forno
O amor que a gente cria
é muito mais fantasia
Cão correndo atrás do rabo

O amor não é um raio
que atinge o coração
Amor não provoca desmaio
Debite isso à paixão

Tem o amar o amor de quem nos ama
e o eu te amo em plena cama
O amor ideal
nunca é o amor natural
O amor demora a surgir
e mais ainda a partir
O da razão nos frustra
O visceral se incrusta

Não se afobe
Amor não aceita lobby
Não se apresse
Guarde o coração
O amor acontece
ou não




Assistam no Youtube o vídeo com haicais meus:
http://www.youtube.com/watch?v=PlHeBhsvPl8&feature=youtu.be

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Quase tudo



  A poesia, sua linguagem, pode ser metafórica, delirante, lúdica, pode até ter teor de relato.

Ela pode ser singela, rebuscada, ser consonante ou assonante.

Pode ter prevalência do significado sobre o significante ou do significante sobre o significado.

Pode pretender perturbar ou enlevar.

Pode ou não, mas deveria ser sempre musical nas suas sonoridades e no seu ritmo.

Poesia rima com epifania e às vezes é produto delas, epifania e rimas.

É também mergulho. De quem a escreve e de quem a lê.

Poesia não é bula e também não tem contraindicações. Mas tem efeitos colaterais que produzem mutações líricas e oníricas.
Poesia, embora seja feita com letras, não é para ser entendida ao pé da letra. Isso provoca chulé literário (mas não literal). 



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Vício benigno


Os dias em que escrevo me parecem com mais sentido e graça que os dias em que não escrevo.

Penso que tenho uma relação um tanto litúrgica com o escrever. Não que isso signifique que eu seja extremamente diligente, metódico e organizado. Nem sou tanto, apenas me esforço em ser menos caótico.

E como nessa liturgia particular eu sou o Papa e redijo (e reformo) as bulas e homilias, ela não é prisão e segue mais o princípio dionisíaco do prazer que o apolíneo do dever.

Sentido.

Direção e sentir. O duplo significado dessa palavra é perfeito. Tem momentos em que o sentir e o compreender não são duas entidades antagônicas que excluem a outra. Tem vez e não é pouca, que o sentido é significância e sentimento, lógica e emocionalidade.

Diz-se que é preciso sentir pra compreender. Também se diz que é preciso compreender pra sentir. Eu diria que é (im)preciso o sentido: sentir e compreender de forma simultânea e assim, fruir.

E isso se dá no âmbito do poético, tanto no que tange ao leitor, quanto ao autor. Se poetas mentem, no sentido cotidiano e cartesiano do termo, ou se falam a verdade, essa também cartesiana, não importa. Tudo é verdade. E a verdade poética não é menor que a do dia a dia mais banal.

Poetas ou quaisquer artistas têm como fonte permanente de trabalho, de criação, a imaginação. E um filósofo que agora não me ocorre qual, disse que a imaginação é um bem tão real quanto qualquer outro. Pois a verdade poética é tão real e valiosa quanto qualquer outra e, poeta que sou, ouso um pouquinho acrescentar que certas verdades poéticas são mais valiosas que algumas verdades filhas do senso comum.

Maiorias não são necessariamente proprietárias de verdades inquestionáveis.

Não sei a dimensão do que transborda pro leitor, não sei bem desses processos, mas sei em mim, que escrever me constitui, me resgata do vácuo da existência, de não respostas pra mil perguntas. Não por acaso já usei inúmeras vezes a metalinguagem pra retratar essa questão vital pra mim.

Hoje está fazendo mais sentido e tendo mais graça. Porque estou escrevendo.



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

À mão livre


Mágicos, mímicos, dentistas, ourives, pintores, jogadores de basquete, escritores, surdos...o que têm em comum? A necessidade de usar as mãos. E de que elas sejam hábeis.

Esses tempos de crescente automação ainda vão demorar a tornar as mãos uma parte obsoleta do corpo. Até porque mão não existe pra funções utilitárias. Ainda prefiro as minhas fazendo um afago, uma carícia, parabenizando alguém, que pilotando um controle remoto de um televisor ou um mouse.

Mãos são versáteis e democráticas. A proletária cimenta um tijolo, a nobre assina a Lei Áurea, a de um médium psicografa, a do músico nordestino toca rabeca e a da criança teca a bola de gude que se confunde com o brilho dos seus olhos focados no seu prazer.

Até há poucos anos eu escrevia meus poemas “à mão” e tenho pequenos cadernos de capa dura repletos de poemas, manuscritos com a ajuda da minha inseparável caneta Lamy de carga inacabável (será que caneta de poeta se embriaga de poesia, vicia e não quer mais parar de escrever?). E mesmo hoje usando teclado, ainda me permito às vezes o antigo prazer da caneta deslizando no papel. Mas ainda são as velhas e boas mãos que digitam. Ainda não escrevemos no computador com um simples comando mental.

Queria dizer isso gesticulando, mas aqui só posso escrever e é por escrito que vou poetar sobre as mãos...


À mão livre

Mão
Pra que serve?
Mão que serve
que alimenta
contorno
cumprimenta
Mão que acena
Mão que apenas
um toque
leve como pena
de beija-flor
beijando a flor pequena

Mão que esculpe
que modela
Mão que investe
Mão que veste
em si, a luva
Que desnuda
Que desvenda
toda a alma
Mão que acalma
que estimula
com o dorso
com a palma
Mão que anula
todo medo
Mão tem dedo
Digitais
Tem afeto
Mão traz paz

Mão que ajuda
sendo dura
sendo mole
Mão que escolhe
Mão que cura
Que garante
Passa adiante
o anel
da brincadeira
Mão inteira

Mão que conta
Que aponta
o caminho
Faz carinho
Mão que livra
Mão que lavra
Mão que indica
que a chegada
é um ponto
de partida
Mão que, muda
vai narrando
os mistérios
dessa vida