Importante

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sábado, 25 de fevereiro de 2012

Verso-nome. Amor ao rigor

João Cabral de Melo Neto é um poeta admirável. Linguagem anti-romântica, texto econômico, rigor estético, construtivismo, cerebralismo, são traços marcantes da sua poesia. Pernambucano, viveu seus últimos anos no Rio de Janeiro, no Flamengo. Éramos vizinhos de bairro.

Quando soube de sua morte em 1999, uma semana depois do meu aniversário, fiquei triste, com aquela sensação de perda de mais um grande artista. Tive vontade de expressar isso num poema, quis fazer um réquiem, um lamento. Me ocorreu que fosse num soneto. Instintivamente pronunciei seu nome completo: João Cabral de Melo Neto. Repeti: João Cabral de Melo Neto...foi meu achado poético. Seu nome é um verso! E em redondilha maior, sete sílabas métricas. Rigor e perfeição até no seu próprio nome. Fiz do seu nome-verso o desfecho do sonetilho. Comecei a escrevê-lo pelo final.



O outro Cabral


Na vidraça estilhaçada
reconstrói-se a poesia
Tudo que é uma pedra e nada
Alicerce e heresia

A palavra não ajuda
Inaudita, inodora
Peço que ela fique muda
que calado é que se chora

Do rigor já sem controle
meu pesar se desvencilha
num lamento de arco e fole

Me perdoa o dialeto
És maior que a redondilha
João Cabral de Melo Neto



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Neo

Novos significantes que levem a novos significados. Neologismos podem enriquecer a língua. As gírias por vezes são neologismos, quando não são apenas palavras usuais deslocadas de seus significados originais.

Neologismos criam palavras absolutamente novas, ou novos significados pela fusão de palavras já existentes. Em escorremuilento, por exemplo, aglutinei três palavras, quase uma frase que resultou num adjetivo. Algo viscoso, que escorre muito lento, portanto algo que é escorremuilento.

Busco o que ultrapasse a simples soma. Algo maior que a soma das partes. Novas palavras que agreguem sentido. Não por acaso o texto se apoia nos sentidos físicos que se apropriam ou tentam lançar luz sobre os sentidos de significado.

Neologismos vazios, pura pirotecnia, malabarismo, não me seduzem. Podem ser lúdicos, podem ter riqueza sonora, mas remetendo a algo que subjaz e refaz, relê imagens e conceitos.


                                                                                                                   foto de Claudia  Jacobovitz


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Confluências


Não sou um típico folião, talvez nem um típico carioca, mesmo sendo um assumido eterno enamorado dessa cidade feminina e sedutora que é o Rio de Janeiro.

Mas eu adoro música e o carnaval na minha cidade resolveu nos contemplar com a diversidade e lá fui eu, curioso que sou, atrás do Bloco do Sargento Pimenta, um bando e uma banda de jovens músicos que resolveram inovar com as canções dos Beatles em ritmo de samba e marchinhas. O resultado é lúdico, nostálgico, alegre e bonito. Nostálgico pros da minha geração, mas não pras pessoas de 20, maioria por lá. Me espanta e contenta ver gente dessa faixa etária cantando com desenvoltura e intimidade as canções compostas há cinquenta anos, sabendo-as de cór, coisa que eu mesmo não sei mais. Minha filha, com 22 anos, é uma beatlemaníaca que nasceu bem depois de os Beatles terem se separado.

E me parece que lá, pra uma imensa maioria, estava o melhor de dois mundos, aquele sincretismo afro-bretão levado ao altar da celebração. Daí me lembrei que outro dia poetei exaltando o frevo. Faz tempo compus uma canção que falava de misturas de ritmos e culturas e quero então compartilhar a letra, na carona dessa globalização do bem, que conflui, funde, entrelaça, mas sem matar as singularidades de cada cultura regional.



Divina com-fusão


Quero ser universal
ser infantil, ser sensual
Botar a avó pra dançar
Quero gregos e troianos
Bruxos, gringos e baianos
Batucada geral

Nem quero saber se é pós-moderno
Rasga o jeans
ou usa terno
Eu quero a eterna fusão
Sintetiza essa cuíca
Bota salsa nessa valsa
numa rica invenção

Funkalipsamblues
Sinforrock
Frevalsalsoul

Eu sempre amei o meu país
Mas não quis criar raiz
Caretas, torçam o nariz
pra essa mistura que eu fiz

Funkalipsamblues
Sinforrock
Frevalsalsoul



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Menos sendo mais II (outro soneto "monossilábico")

Vertical é cachoeira. É voo de gaivota em busca do peixe. Pincelada de Pablo Picasso. Olhar de Michelangelo pintando sua Capela Sistina. Sobe e desce sutil das teclas de um piano. Ponteiros do relógio marcando as seis e o meio-dia.

Nossa relação com o divino, acuada, de esguelha, faz dessa verticalidade enviesada o prelúdio da solidão de Deus. Sejamos pródigos e nos compadeçamos dele. Que ele, sorridente, use a Lei da Gravidade que inventou, para cair dos céus e desfrutar mais das suas criaturas e findar seu distanciamento silencioso, neutro e solitário. E isso se torne mais horizontal.

Quem sabe assim, a teu alcance, esteja o ateu que assim te alcance...



Sem rei nem réu


Com a tez sem cor
Ar de ser tão só
Lá no mar de pó
Jaz um deus em flor

Fez o mar dar nó
Fez um lar do Caos
Leis do Bem e Mal
Riu da dor de Jó

Só que foi tão bom
que nos deu o dom
Voz do sim e não

Já não há mais céu
Nau sem rei nem réu
Nós e o deus no chão


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Menos sendo mais

Soneto é uma forma peculiar de poesia que se caracteriza por ter duas quadras, ou quartetos, seguidos de dois tercetos na tradição inglesa. A francesa já faz uma divisão de estrofes diferente, com três quadras e a última estrofe com apenas dois versos.

Em ambas as escolas existem regras que delimitam os sonetos. Estruturas de rimas, métrica e rítmica são os cânones clássicos. Por isso sonetos são considerados desafiadores. O mais usual é o decassílabo, com dez sílabas métricas, mas também encontramos os dodecassílabos ou Alexandrinos e os chamados sonetilhos, sonetos em redondilha maior ou menor, ou seja, com sete ou cinco sílabas métricas.

Embora eu, como vários poetas contemporâneos, escreva sonetos dentro dos rigores do soneto clássico, me permito experimentar um pouco, quebrando intencionalmente com alguma regra. Por exemplo seis, nove ou onze sílabas métricas, ou usar ao longo de todo o soneto apenas duas ou até uma só rima, ou preencher todo o soneto apenas com palavras de uma classe, como as proparoxítonas ou as monossílabas.

O soneto a seguir se encaixa nesse último caso e eu brinco de chamá-lo de soneto monossilábico. Monossílabos são abundantes na língua inglesa, que tem muitas palavras de cinco, seis letras que formam uma sílaba só: strong, smile, crowd, choose, etc. Já a nossa língua é bem pobre em palavras monossílabas, o que, a princípio, propõe ainda maiores desafios na construção de um soneto com rimas e métrica. Por isso foi tão prazeroso fazê-lo e vê-lo pronto.


No fim do mar


Ver o sol se pôr no fim do mar
Luz que flui na cor da flor mais sã
diz por si que a dor não é tão vã
Já nos traz um triz a mais de ar

Trai sem dó a tal da lei do cão
Dói pois rói o ser no grau mais vil
Só que tem na dor do que já riu
mais que o som do sim por trás do não

Ver o show do sol que sai do céu
é tal qual não ter mais voz num véu
mas de um som que vem de lá dos rins

Cai o sol de mais de cem mil graus
Um que traz a luz pra nós, pras naus
que se vão do cais que há em mim


domingo, 19 de fevereiro de 2012

Preto e branco em cores 2



O minimalismo do preto e branco em ressonância com o minimalismo conciso dos haikais. 
Uns respingos, também minimais, de cor, ressaltam a não cor.
Haikais de amor, tentativa de fazer o mar caber num dedal...

                                                                                                                                     ilustrações de Ana Eliza Frazão


sábado, 18 de fevereiro de 2012

Preto e branco em cores


Um dos novos conceitos que a Física quântica nos trouxe, é que não só os eventos modificam o observador como também o observador modifica os eventos. O preto no branco da antiga expressão teve que ser relativizado.

Preto e branco. O preto, que marca tanta presença, é, na verdade a ausência de cor e o branco, que remete ao vazio é o somatório de todas as cores, plenitude. As zebras têm hiatos brancos ou vazios pretos? Ou por outra, alternam a plenitude das cores com a ausência delas? Tive uma camisa toda coberta por diversos tons de cinza que chegavam até o preto e o branco. Tinha a sensação de ela ser vivamente colorida.
Pois sim significa não. E pois não significa sim.

Sou louco por floriculturas, tucanos, Gustav Klimt, arco-íris, auroras boreais...mas porque fotos em preto e branco quase sempre são mais elegantes e artísticas? Talvez porque as cores por si só nos atraiam a ponto de nos distrairmos das formas e sendo assim, a ausência da cor talvez foque nosso olhar nos traços, nos volumes, nas texturas.
Hollywood teima em tentar nos fazer desgostar do preto e branco, mas paradoxalmente o mais forte candidato ao Oscar é O artista, um filme francês, mudo e em preto e branco. Tem a minha simpatia. Tomara que vença.

Meus haigás, ou haikais com imagens, são ilustrados por Ana Eliza Frazão em nanquim e litogravuras, em leve, delicado e luminoso preto e branco. O resultado é infinitamente mais bonito que minha camisa de tons de cinza!



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Fratermal ascendente

Muito já foi escrito, cantado, filmado, encenado sobre o amor. Sobre a amizade não tanto. Não pretendo teorizar sobre semelhanças e diferenças entre amor e amizade ou até, como vejo frequentemente acontecer, sobre as supostas diferenças entre amor e paixão. Sou só um poeta e de pretensão já basta a minha poesia!

E como eu sou um cara meio confuso e difuso, acabo não distinguindo muito nada disso: amor romântico, amor platônico, amor fraterno, admiração, parceria. Tenho apreço por todas essas formas, mas desconfio que no fundo tudo isso derive de uma coisa só, que nós apenas compartimentamos racionalmente e por criarmos várias denominações, faz parecer que sejam coisas distintas.

Não à toa dizem que minha palavra favorita é amálgama, que traduz bem essa ideia. Mas também gosto muito de vertiginoso e arrebatamento. Amálgama, além do significado (e de seu sufixo ser ama), me atrai também por ser uma proparoxítona. Amo proparoxítonas. São explosivas, exuberantes. Soam como rojões disparados quando nosso time entra em campo. Ótima dádiva rúcula Drácula...música pros meus ouvidos.

Ontem fiz um tributo ao frevo. Hoje o tributo é pros amigos. Ei, isso é pra vocês, meus queridos. Vistam a carapuça. Ela é de seda pura e hipoalergênica ( outra proparoxítona...).

Pros amigos que tive, pros que ainda tenho e pros que terei, mesmo que caibam em apenas três versos.



quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Fervor



Um pequeno tributo ao frevo, uma das mais felizes e graciosas combinações de dança e música que conheço.

Frevando

O frevo ferve em Olinda
Não tem coisa mais linda
pra se inventar
O frevo é contagioso
Um gozo de pernas
Sombrinha no ar
Doença mais sã
que eu quero pegar
Delírio e afã

O dançarino que freva
se agacha e se eleva
Cossaco no fervo
O ritmo no nervo
Cometa, avatar
Sincrônica farra
ao som da fanfarra
Demônios no céu
O frevo ferve na veia
que o sol incendeia
em pleno escarcéu
O corpo ziguezagueia
Três voltas e meia
Sem corda o rapel!

O frevo é contagiante
Feliz e ofegante
As pernas em trança
na dança mais linda
Sou rei, sou criança
frevando em Olinda


domingo, 5 de fevereiro de 2012

Tempo agridoce

                                                                                                                       ilustração de Ana Eliza Frazão


Parodiando o grande Mário Quintana:

O tempo e a vida passarão.
Eu, passarinho.

                                             

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Tempo lúdico

                                                                                                                       ilustração de Ana Eliza Frazão

Ante a inexorabilidade do tempo, só nos resta brincar. Inclusive com as palavras.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

E la nave va



                                                                                                                     foto de Claudia Jacobovitz
                       
"Se quieres ser feliz como me dices
no analices, no analices”
                                                   Joaquin Bartrina, poeta catalão do século XIX

Podemos ser racionais, mas não temos, por isso, que racionar as emoções. Por outro lado, quando nossa faceta emocional nos leva a uma condição de auto tortura, precisamos de um antídoto. Os sãos carregam um sorriso estampado, mesmo nas adversidades, mesmo tendo vida dura. Seguem leves e lúdicos. Minha avó não leu Joaquin Bartira, mas instintivamente não analisava. Era e foi feliz e viveu cem anos assim.

Pero muchos de nosotros somos neuróticos, preferimos complicar, cultivamos angústias, lamentamos amores não correspondidos e idealizados, fazemos análise, versejamos agruras, somos um Mahler compondo sinfonias de agonia, bradamos fomes e sedes insatisfeitas, choramos em filmes do Steven Spielberg, temos Facebook...enfim, se fôssemos um pouco mais sábios ou pelo menos mais sagazes, potencializaríamos a nosso favor dois dons: o da lembrança e o do esquecimento. Mas no fim das contas sofremos por lembrar o que deveríamos esquecer e por esquecer o que deveríamos lembrar.

E oscilando entre desmesuras e contenções La nave va. E apesar de tudo não vamos deixá-la encalhar. O que está esperando? Vada a bordo, catzo!

Faltando o fim

Então eu me lembrei que me esqueci
de me lembrar do véu da desmemória                   para apagar de vez a nossa história
que acaba e recomeça sempre em ti

Foi quando eu me esqueci de me lembrar
de me esquecer do vício da lembrança
que é sempre tão voraz e não se cansa
buscando em cada rosto o teu olhar

E sigo por aí de flerte em flerte
sabendo que a mentira de esquecer-te
é quase como um tiro de festim

Das Mil e uma Mortes ressuscito
Pequena Fênix, bem menor que o mito
Banal canção de amor faltando o fim